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SUTURAS, FISSURAS, RUÍNAS "Se a dor do outro não doer em mim, eu desconheço o amor." (São Paulo, outubro de 2022) Plano 0 Azulejo português sangra quando você rasga. Adriana Varejão sabe disso. São Paulo também. Eu tinha uma luz pérola na cabeça quando entrei na cracolândia. Luz de amor incondicional que enviava para tudo e todos — prédios, carros, vitrines, gente. Amor universal, abstrato, generoso. Aquele amor bonito que cabe bem em frase motivacional. Amor que esquecia justamente quem mais precisava dele.   Plano 1 — Exterior — Pinacoteca — 16h Saí da exposição Suturas, Fissuras, Ruínas com a cabeça cheia de feridas pintadas e o coração cheio de insights. Varejão tinha passado a tarde me mostrando que parede colonial tem carne, que história não cicatriza, que beleza arquitetônica esconde carnificina. Eu tinha passado a tarde tirando foto das legendas para parecer culto. Mochila de couro nas costas. Calça jeans. Tênis surrado. Fone de ouvido — pequeno e...
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    ENTROPIA: DRAMATURGIA DA DISSOLUÇÃO E A REINVENÇÃO DO CORPO RITUAL   VINHO E CATARSE: COMO "ENTROPIA" DISSOLVE O ESPECTADOR PARA REINVENTÁ-LO: O espetáculo que oferece vinho, proíbe uso de câmeras (fotografia e filmagem) na medida que transforma a plateia jovem em celebrantes de um ritual dionisíaco contemporâneo.   O RITO COMEÇA NA TRANSGRESSÃO: PRÓLOGO AO CAOS O teatro exige o rigor cronométrico do tempo. Dois minutos de atraso — talvez três — são pecado venial contra a pontualidade cênica. Mas a arte, por vezes, convida à pequena transgressão. Ousei cruzar o limiar do Barracão Entropia mesmo assim, sabendo que ali dentro já tinha começado algo que exigia mais do que presença. Para minha surpresa, a recepção não foi barreira, mas oferta eucarística profana: a produção me estendeu uma pequena taça de vinho. Nenhuma palavra, apenas o gesto — tome, beba, entre. Aceitei o cálice e deslizei para a primeira fila, a zona de perigo, acomodando-me ao lado ...
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  A POÉTICA DAS ÁGUAS EM  MONET Claude Monet (1840-1926) estabeleceu-se como uma figura singular na história da arte, não apenas por sua técnica revolucionária, mas pela profunda relação que desenvolveu com o elemento aquático. Monet representou as superfícies aquáticas como espelhos luminosos e mutáveis, como no emblemático Bridge over a Pond of Water Lilies (1899), onde a ponte japonesa de Giverny se reflete no lago repleto de nenúfares. Suas pinturas transcendem a mera representação paisagística para constituir uma verdadeira poética das águas - um conjunto coerente de princípios estéticos e filosóficos que transformaram reflexos líquidos em espelhos da alma humana. A complexidade dessa poética aquática tornou-se evidente durante minha visita à exposição "A Ecologia de Monet" no MASP (16 de maio a 24 de agosto de 2025), curada por Adriano Pedrosa e Fernando Oliva. A mostra, organizada em cinco núcleos temáticos, revelou dimensões até então pouco exploradas da relação ...