VIDAS NUAS, CORPOS PRECÁRIOS: ANIMAIS
COMO CIFRAS DA VULNERABILIDADE NA REPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA
Um ensaio sobre animalidade,
necropolítica e intermidialidade dos invisíveis
"O animal nos olha, e estamos nus
diante dele. E talvez o pensamento comece aí."
— Jacques Derrida, O Animal Que Logo
Sou
INTRODUÇÃO: O ANIMAL COMO QUESTÃO
Quando Graciliano Ramos escolhe narrar
a agonia de Baleia, a cadela de Vidas Secas, em terceira pessoa mas pela
perspectiva do animal moribundo, opera-se uma ruptura radical no regime de
visibilidade do romance brasileiro. Ali, naquelas páginas que fazem leitores
chorarem pela cachorra, não se trata apenas de antropomorfizar o bicho para
despertar piedade — trata-se de expor, através do corpo vulnerável do animal, a
própria estrutura da violência que produz tanto a vida humana quanto a
não-humana como descartáveis. Baleia não simboliza a família de retirantes;
Baleia É a família de retirantes — ou melhor, compartilha com eles uma condição
ontológica comum que Giorgio Agamben chamaria de vida nua: vida exposta à morte
sem que sua eliminação constitua crime ou sacrifício.
Este ensaio parte de uma premissa
incômoda: a representação de animais vulneráveis nas artes não funciona
primordialmente como metáfora para o humano, mas como CIFRA — no duplo sentido
de código a ser decifrado e de número que quantifica o incalculável. Os animais
nas obras que examinaremos não estão ali para representar os marginalizados;
estão para expor a própria maquinaria que produz a marginalização como
tecnologia de gestão dos corpos. Quando Robert Bresson filma o burro Balthazar
sendo espancado, quando Francisco de Zurbarán pinta o cordeiro amarrado para o
sacrifício, quando Kevin Carter fotografa o abutre espreitando a criança
sudanesa faminta — em todos esses momentos não assistimos a alegorias
consoladoras, mas a documentos de uma necropolítica que governa a vida pelo
direito de matar.
A questão que nos move, portanto, não é
"o que os animais simbolizam nas artes?", mas "o que a
insistência em representar animais vulneráveis revela sobre os regimes de
visibilidade e invisibilidade que organizam o sensível?". Seguindo Jacques
Rancière, entendemos que a arte não reflete a realidade — ela intervém na
partilha do sensível, redistribuindo o visível e o dizível, reconfigurando os
lugares dos corpos no espaço comum. Quando um cordeiro entra numa pintura
barroca, quando um cervo ferido sangra numa tela de Frida Kahlo, quando uma
super-porca transgênica protagoniza um filme de Bong Joon-ho, não se trata de
mera escolha temática: trata-se de uma operação política sobre os limites do
reconhecível como vida digna de luto.
Este ensaio insere-se no projeto mais
amplo Intermidialidade dos Invisíveis: Entre Literatura, Imagens e Arte —
Corpos, Arquivos e Restos, que investiga como práticas artísticas
contemporâneas tentam dar visibilidade a populações marginalizadas sem reduzi-las
a espetáculos de sua própria destruição. A questão animal não é aqui um desvio,
mas um eixo fundamental: porque o animal é, na tradição filosófica ocidental, a
figura por excelência do excluído do logos — aquele que, não tendo fala, não
pode ser sujeito de direitos nem de história. Examinar como diferentes
linguagens artísticas mobilizam corpos animais vulneráveis nos permite
compreender melhor os dispositivos de enunciação que ou bem redistribuem o
poder de fala, ou bem reproduzem a estrutura mesma da exclusão que pretendiam
denunciar.
Estruturamos a investigação em quatro
movimentos conceituais, cada qual mobilizando um corpus intermidiático
(literatura, cinema, pintura, fotografia) e um quadro teórico específico: (1)
Vida Nua e Animalidade, onde Agamben nos ajuda a pensar a zona de indistinção
entre humano e animal como fundamento do poder soberano; (2) O Olhar e a
Alteridade, no qual Derrida, Buber e John Berger interrogam o que significa ser
visto pelo animal; (3) Espécies Companheiras e Vulnerabilidade Compartilhada,
com Donna Haraway questionando o excepcionalismo humano; (4) Necropolítica e
Vidas Descartáveis, conectando a questão animal com as populações urbanas
invisibilizadas que atravessam nossa pesquisa sobre corpos, arquivos e restos.
Ao final, não ofereceremos respostas reconfortantes — ofereceremos, antes,
instrumentos críticos para pensar a vulnerabilidade não como exceção patética,
mas como condição ontológica compartilhada que exige, urgentemente, uma ética e
uma política da precariedade.
I. VIDA NUA E ANIMALIDADE: A ZONA DE
INDISTINÇÃO
1.1. O Aberto: Agamben e a Máquina
Antropológica
Em O Aberto: O Homem e o Animal,
Giorgio Agamben propõe que a distinção entre humano e animal não é um dado
biológico, mas o produto de uma "máquina antropológica" que funciona
criando e recriando incessantemente a diferença. Essa máquina opera não por
exclusão simples, mas por inclusão excludente: o animal não está meramente fora
do humano, mas dentro dele como aquilo que deve ser constantemente expulso para
que o humano se constitua. "O homem", escreve Agamben, "é o
animal que deve reconhecer-se humano para sê-lo" — o que significa que a
humanidade não é essência, mas operação: uma máquina que produz o humano
separando-o de sua vida animal, mas mantendo essa vida como resto incluído.
Essa operação tem consequências
devastadoras quando pensamos as representações artísticas. Quando Franz Kafka
transforma Gregor Samsa num inseto em A Metamorfose, não está simplesmente
metaforizando a alienação moderna — está expondo o mecanismo mesmo da exclusão:
Gregor torna-se literalmente aquilo que sempre foi no capitalismo, um corpo
animalizado que só vale enquanto produz, e que pode ser descartado assim que
deixa de funcionar. A família que o confina no quarto, que joga comida podre
para que ele se alimente, que planeja sua morte como quem se livra de uma praga
— essa família executa a lógica da máquina antropológica: reduz Gregor àquilo
que Agamben chama de homo sacer, a vida matável e insacrificável, a vida que
pode ser eliminada sem que isso constitua homicídio nem sacrifício.
Mas Kafka vai além: ao narrar parte da
experiência desde a consciência de Gregor-inseto, força o leitor a habitar
precisamente aquela zona de indistinção entre humano e animal que a máquina
antropológica tenta obliterar. Gregor tem memória, vergonha, desejo de música —
mas tem também corpo de barata, apetites incompreensíveis, movimentos
involuntários. Ele É a zona de indistinção. E é precisamente porque permanece
consciente que sua animalização nos horroriza: não pelo que ele se tornou, mas
porque reconhecemos que a separação entre humano e animal sempre foi tênue,
sempre foi uma operação de violência.
1.2. Baleia como Paradigma Nacional:
Graciliano Ramos e a Vida Nua no Sertão
Se Kafka expõe a máquina antropológica
pela via do humano animalizado, Graciliano Ramos a expõe pela via inversa:
dando consciência narrativa ao animal. Mas há aqui algo mais radical que uma
inversão de perspectiva — há uma RUPTURA FUNDADORA NO REGIME DE VISIBILIDADE DO
ROMANCE BRASILEIRO. O capítulo "Baleia" de Vidas Secas (1938) não é
apenas um dos momentos mais comoventes da literatura brasileira; é o momento em
que a literatura brasileira recusa, de forma definitiva e irreversível, a separação
ontológica entre os retirantes humanos e o animal que os acompanha.
Quando Fabiano decide matar Baleia
porque ela está doente e não há recursos para mantê-la, executa a mesma lógica
necropolítica que governa sua própria existência: vidas que não produzem, vidas
que consomem recursos escassos, vidas que podem e devem ser eliminadas. Mas
Graciliano faz algo perturbador: narra a morte de Baleia desde a perspectiva da
cadela. "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de
preás" [RAMOS, 2019, p. ___]. Esse discurso indireto livre que permeia a
consciência animal não é concessão sentimental — é operação crítica que se
tornaria constitutiva da literatura brasileira engajada com os marginalizados.
Ao nos fazer acompanhar os últimos
pensamentos de Baleia (se há pensamento; se há preás; se há felicidade
possível), Graciliano nos força a reconhecer que a distinção entre a vida
humana e a vida animal dos retirantes é, ela mesma, inoperante. Fabiano, Sinhá
Vitória, os meninos — todos compartilham com Baleia a condição de vida nua, de
corpos governados pelo direito soberano de serem deixados morrer. O sertão
nordestino em Vidas Secas não é apenas cenário geográfico; é ZONA DE
INDISTINÇÃO onde as fronteiras entre humano e animal, entre vida protegida e
vida matável, entram em colapso.
Aqui reside a potência crítica que faz
de Baleia o paradigma nacional da vida nua: ela não simboliza a família de
retirantes como metáfora consoladora; ela explicita a lógica necropolítica que
governa todos eles. Quando leitores choram por Baleia — fenômeno recorrente
documentado pela fortuna crítica da obra — esse choro não se esgota na comoção
por um animal que "representa" a miséria humana. Trata-se do
reconhecimento insuportável de que, no Brasil, há vidas — humanas — tratadas
como vidas animais: vidas cuja morte não importa, vidas que podem ser
eliminadas sem cerimônia, vidas que não são passíveis de luto porque nunca
foram plenamente reconhecidas como vidas.
A emoção que o texto provoca não é
piedade; é horror — o horror de reconhecer a necropolítica funcionando. E esse
horror não é abstrato: é profundamente enraizado na formação social brasileira,
na história da seca nordestina, nas ondas migratórias dos retirantes, na
persistência estrutural da miséria que o desenvolvimentismo prometeu erradicar
mas apenas deslocou geograficamente. Baleia, publicada em 1938, torna-se assim
cena fundadora que ainda hoje decodifica a vulnerabilidade dos corpos
descartáveis nas periferias urbanas contemporâneas.
1.3. O Cordeiro Sacrificial: Zurbarán e
a Violência Sacralizada
Se Kafka e Graciliano expõem a máquina
antropológica em operação, Francisco de Zurbarán a sacraliza. Sua pintura Agnus
Dei (c.1635) mostra um cordeiro jovem, deitado de lado, com as patas dianteiras
atadas — pronto para o sacrifício. Fundo negro, luz lateral que modela o corpo
branco do animal, olhos fechados em expressão de serenidade que beira o êxtase.
É uma das imagens mais perturbadoras da pintura barroca precisamente porque
conjuga beleza formal e violência estrutural: o cordeiro está amarrado, está prestes
a morrer, mas a composição o apresenta como objeto de contemplação estética,
quase erótica.
Zurbarán pinta a vida nua em seu
momento de máxima sacralização: o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus que tira os
pecados do mundo. Aqui a máquina antropológica atinge sua forma mais refinada:
o animal não é meramente excluído — é sacrificado, o que significa que sua
morte adquire sentido, torna-se fundadora de ordem. Agamben nos lembra que o
sacrifício é precisamente a operação que transforma vida matável (vida nua) em
vida sagrada: o cordeiro pode morrer porque sua morte significa. Mas essa
sacralização não abole a violência — a dissimula sob liturgia.
A potência crítica de Agnus Dei reside
em sua ambiguidade: podemos lê-lo como glorificação do sacrifício (a inocência
que se oferece para salvar os culpados), mas podemos também lê-lo como denúncia
— o cordeiro amarrado, incapaz de resistir, totalmente exposto à violência que
virá. Sua serenidade não é paz; é desamparo absoluto. E o fato de que a
tradição cristã tenha feito desse cordeiro o símbolo máximo da redenção apenas
reforça o argumento de Agamben: a vida nua não está fora da ordem sacra — está
em seu fundamento. O sacrifício não redime a violência; a perpetua sob forma de
expiação.
Esses três exemplos — Gregor-inseto,
Baleia moribunda, o cordeiro amarrado — nos permitem estabelecer a primeira
tese deste ensaio: a representação de animais vulneráveis nas artes não é
metáfora piedosa, mas exposição da maquinaria biopolítica que produz vidas
matáveis. Kafka, Graciliano e Zurbarán, cada qual a seu modo, forçam o
espectador/leitor a confrontar a zona de indistinção onde humano e animal se
confundem — não para celebrar uma suposta comunhão mística, mas para revelar
que o poder soberano sempre operou criando vida nua, vida desprotegida, vida
que pode ser eliminada. E que essa operação não é exceção, mas norma — a norma
que governa tanto os retirantes do sertão quanto os animais de abate, tanto os
corpos inscritos como matáveis quanto aqueles inscritos como sacrificáveis.
II. O OLHAR E A ALTERIDADE: QUEM VÊ
QUEM?
2.1. Derrida e o Animal Que Nos Olha
"O animal nos olha, e estamos nus
diante dele. E talvez o pensamento comece aí." Essa frase de Jacques
Derrida, em O Animal Que Logo Sou, desloca radicalmente a questão da
representação animal. Não se trata mais de perguntar o que o animal significa
para nós, mas o que significa ser visto pelo animal. Derrida narra uma cena
aparentemente banal: está nu, no banheiro, e seu gato o observa. Sente
vergonha. Não uma vergonha metafórica — vergonha real, corporal, da nudez
exposta ao olhar de um outro que não compartilha nossos códigos de pudor.
Essa vergonha diante do gato é
filosófica porque expõe a falácia fundamental do humanismo: a ideia de que o
animal não nos vê, de que é apenas objeto de nosso olhar taxonômico, zoológico,
artístico. Derrida insiste: o animal me olha. E nesse olhar há uma demanda, uma
interpelação à qual não posso simplesmente subtrair-me. O gato não sabe que
estou nu; mas eu sei. E sei que ele me vê. E isso basta para que a relação se
inverta: não sou mais o sujeito que observa o animal-objeto; sou o corpo
exposto a um olhar que não domino.
O que tem isso a ver com a
representação artística de animais vulneráveis? Tudo. Porque quando um cineasta
como Robert Bresson filma o burro Balthazar, não está apenas mostrando um
animal sofredor — está nos colocando diante de um olhar que nos interpela. A
câmera de Bresson insiste nos olhos de Balthazar: grandes, escuros,
impenetráveis. O burro nos olha. E nesse olhar não há acusação explícita (como
haveria num olhar humano), mas há presença. Uma presença irredutível que
resiste à significação, que não pode ser inteiramente traduzida em símbolo ou
alegoria.
2.2. Martin Buber: O Animal como Tu e o
Limiar da Mutualidade
Entre Derrida e Bresson, entre a
filosofia continental e o cinema da presença, há um pensador que antecipa ambos
e cujas intuições permanecem indispensáveis para pensar o olhar animal: Martin
Buber. Em Eu e Tu (Ich und Du, 1923), Buber propõe que a existência humana
plena se realiza nos encontros Eu-Tu, nos quais reconhecemos o outro em sua
totalidade subjetiva, em vez de tratá-lo como objeto (Eu-Isso) a ser utilizado
ou categorizado. E — crucial para nosso argumento — Buber não limita esses
encontros apenas a relações inter-humanas: afirma que podemos nos relacionar em
modo Eu-Tu também com seres naturais e animais, ainda que tais relações tenham
características especiais.
Buber descreve de forma tocante a
experiência de olhar nos olhos de um animal doméstico. Ele observa que "os
olhos do animal têm o poder de uma grande linguagem" [BUBER, 2001, p. ___]
— sem palavras ou gestos, um olhar animal pode nos comunicar algo fundamental,
revelando um "mistério" próprio de sua condição. Em um encontro
paradigmático, Buber narra ter acariciado seu gato e percebido, por alguns
instantes, uma reciprocidade genuína no olhar do animal. "O mundo do Tu
havia emanado das profundezas no instante de um olhar e agora já caiu de novo
no mundo do Isso" [BUBER, 2001, p. ___]. O encontro foi real, mas efêmero
— o gato retornou à sua opacidade, Buber à sua solidão humana.
Aqui reside uma diferença crucial que
Buber identifica: o animal não é "duplo" como o ser humano. Nós
oscilamos constantemente entre os modos Eu-Tu (relacional, dialógico) e Eu-Isso
(utilitário, objetificante), com plena consciência reflexiva dessa oscilação. O
animal, por sua vez, não possui essa capacidade de alternância reflexiva.
Quando um gato nos olha em modo Tu, está inteiramente presente naquele instante
— mas não pode manter-se indefinidamente nessa postura, nem refletir sobre ela
posteriormente. Há, portanto, o que Buber chama de um "limiar da
mutualidade": o encontro é genuíno, há resposta mútua, mas não há a plena
reciprocidade reflexiva que caracteriza as relações Eu-Tu entre humanos.
Isso não implica hierarquia valorativa,
mas diferença estrutural. Buber não está dizendo que os animais sejam
inferiores por não sustentarem o modo Eu-Tu reflexivamente — está descrevendo
uma especificidade ontológica. E mais: está sugerindo que há uma INOCÊNCIA
ÉTICA no animal precisamente por sua incapacidade de trair o Tu, de
instrumentalizar deliberadamente o outro. O animal pode nos ferir, mas não pode
nos trair no sentido humano do termo — não pode reduzir-nos calculadamente a
meios para seus fins. Essa inocência não é mérito moral (o animal não escolhe
ser inocente), mas condição existencial que nos interpela eticamente.
Quando Graciliano narra a morte de
Baleia, está realizando literariamente o que Buber descreveu filosoficamente:
está tentando habitar, pela via do discurso indireto livre, aquele instante em
que o mundo do Tu emana do animal — e está mostrando também como esse mundo
recai imediatamente no Isso quando Fabiano decide que Baleia deve morrer. A
passagem do Tu ao Isso não é aqui oscilação natural, mas violência
necropolítica: a redução forçada de uma vida-em-relação a um corpo-descartável.
E no contexto brasileiro, essa redução
tem ressonância específica: porque a sociedade que trata pessoas em situação de
rua, trabalhadores precarizados, populações periféricas como Isso — como
objetos a serem geridos, removidos, eliminados — é uma sociedade que falhou em
realizar sua própria humanidade. Não porque "animalizou" esses corpos
(o que seria insulto aos animais), mas porque recusou-lhes a possibilidade
mesma do encontro Eu-Tu, condenando-os ao regime permanente da objetificação.
2.3. Au Hasard Balthazar: O Cinema da
Presença
Au Hasard Balthazar (1966) é
frequentemente lido como parábola cristã: o burro como santo inocente que sofre
os pecados alheios. Essa leitura não está errada, mas é insuficiente. Porque
Bresson faz algo que nenhuma parábola faz: ele filma o burro. E filmar é diferente
de narrar. Filmar é confrontar-se com a presença física, com o corpo que
resiste à linguagem. O burro de Bresson não fala (nem na forma do discurso
indireto livre de Graciliano); ele está. E seu estar é irredutível.
Quando vemos Balthazar sendo espancado
por adolescentes cruéis, quando o vemos trabalhar até a exaustão, quando o
vemos morrer sozinho numa montanha enquanto ovelhas pastam ao redor — o que
vemos? Vemos sofrimento, claro. Mas vemos também opacidade. O burro não nos dá
acesso à sua interioridade. Não sabemos o que ele sente. Não sabemos se
compreende o que lhe fazem. E essa opacidade não é falha — é a condição mesma
da alteridade. Derrida nos alerta: quando dizemos "o animal", no
singular, como se houvesse uma essência animal, já estamos cometendo violência.
Há animais, no plural. E cada um deles é um outro irredutível.
Bresson compreende isso. Por isso não
psicologiza Balthazar. Por isso não o faz "simpático" (como faria
Disney). Por isso a câmera apenas observa — mas observa de um modo que nos
força a sustentar o olhar do burro. E nesse encontro de olhares (o nosso, de
espectadores; o dele, de animal filmado), algo se passa. Não identificação, não
projeção — mas reconhecimento de uma vulnerabilidade compartilhada. Porque
tanto o burro quanto nós estamos expostos. Ele, à violência dos humanos que o
exploram. Nós, à interpelação de um olhar que não pede nossa compaixão (como
pediria um cão abandonado), mas que simplesmente está, demandando
reconhecimento.
2.4. John Berger: Por Que Olhamos os
Animais?
Em seu ensaio clássico "Por Que
Olhamos os Animais?", John Berger argumenta que, na modernidade
industrial, os animais reais desapareceram de nossas vidas, mas suas imagens
proliferaram. Animais de verdade — aqueles com quem compartilhávamos o mundo,
que trabalhavam conosco, que nos alimentavam — foram confinados a zoológicos,
fazendas industriais, laboratórios. Em seu lugar, temos animais de pelúcia,
animações Disney, pets neurotizados em apartamentos. Berger chama isso de
"marginalização do animal": eles foram empurrados para as bordas da
experiência humana, enquanto sua imagem tornou-se onipresente.
Mas há uma perda fundamental nesse
processo: a perda do olhar mútuo. No zoológico, Berger nota, os animais não nos
olham — olham através de nós, ou desviam o olhar, entediados. São objetos de
nossa observação, mas não nos reconhecem como presenças. E isso, argumenta
Berger, nos empobrece ontologicamente. Porque durante milênios o olhar animal
foi fundamental para a construção da identidade humana: olhávamos os animais e
eles nos devolviam o olhar. Nesse encontro, reconhecíamos simultaneamente
semelhança (são seres vivos, sofrem, desejam) e diferença radical (não falam,
não partilham nossa cultura, permanecem outros).
A representação artística de animais
vulneráveis tenta, frequentemente, recuperar esse olhar perdido. Quando Frida
Kahlo se pinta como veado ferido em El Venado Herido (1946), não está apenas
alegorizando sua dor física. Está se colocando na posição do animal — não para
humanizá-lo, mas para animalizar-se. Seu rosto humano sobre corpo de cervo,
traspassado por flechas, sangrando mas ainda de pé — essa imagem híbrida recusa
a separação confortável entre sujeito artista e objeto representado. Frida É o
veado. Ou melhor: Frida reconhece que sua condição de corpo feminino doente,
traído, objetificado, é análoga à condição do animal vulnerável.
Mas há uma diferença crucial: Frida
pode pintar-se. O veado não pode. E aqui reside o limite ético de toda
representação: podemos tentar habitar a posição do animal, podemos tentar
devolver-lhe o olhar, mas nunca escapamos totalmente da assimetria fundamental.
Nós temos linguagem, temos poder de representação. O animal não. Reconhecer
essa assimetria não significa render-se à impossibilidade da relação ética —
significa, antes, assumir a responsabilidade que vem com o privilégio da
palavra. Se podemos falar sobre os animais, então devemos falar por eles? Ou
devemos, antes, criar espaços onde sua presença não-linguística possa se fazer
sentir, onde sua opacidade não seja traduzida, mas respeitada?
Segunda tese: a representação artística
de animais vulneráveis oscila entre dois polos — a tradução antropomórfica que
os torna compreensíveis e a opacidade radical que preserva sua alteridade. As
obras mais potentes são aquelas que sustentam essa tensão sem resolvê-la.
Bresson não explica Balthazar. Frida não resolve a contradição de ser humana e
veado. Derrida não supera a vergonha diante do gato. E é precisamente nessa
recusa da síntese confortável que a ética se torna possível: porque só podemos
responder ao outro se primeiro reconhecemos que ele escapa à nossa compreensão
total.
III. ESPÉCIES COMPANHEIRAS:
VULNERABILIDADE COMPARTILHADA
3.1. Donna Haraway e o Fim do
Excepcionalismo Humano
Quando Donna Haraway propõe o conceito
de "espécies companheiras" em When Species Meet, está desafiando
frontalmente tanto o humanismo tradicional quanto certo tipo de teoria crítica
que ela considera excessivamente antropocêntrica. Para Haraway, humanos e
animais não são entidades separadas que eventualmente se relacionam — são
mutuamente constitutivos. Nós nos tornamos humanos com os animais, não contra
eles. E essa relação não é meramente instrumental (animais como ferramentas,
alimento, trabalho), mas constitutiva: nossa espécie evoluiu junto com cães,
gatos, cavalos, vacas, cabras. Eles nos transformaram tanto quanto os
transformamos.
O que isso significa para a questão da
vulnerabilidade? Significa que não podemos pensar a precariedade humana
separada da precariedade animal. Quando Graciliano narra Baleia morrendo,
quando Bresson filma Balthazar exausto, não estão apenas usando o animal como
metáfora — estão evidenciando uma vulnerabilidade compartilhada. Haraway
insiste: vulnerabilidade não é fraqueza individual, mas condição relacional.
Somos vulneráveis porque dependemos uns dos outros — humanos de humanos,
humanos de animais, animais de humanos.
Essa perspectiva desloca o eixo ético.
Não se trata mais de estender compaixão aos animais por serem "semelhantes
a nós" (a armadilha antropomórfica), nem de respeitá-los por serem
"radicalmente outros" (a armadilha da diferença absoluta). Trata-se
de reconhecer que estamos emaranhados — que nossas histórias são
co-constituídas, que nossos destinos são entrelaçados. Haraway usa a imagem
provocadora de "tornar-se com": não tornamo-nos humanos e depois
encontramos animais; tornamo-nos humanos tornando-nos com os animais que
domesticamos e que nos domesticaram.
3.2. Okja e a Vulnerabilidade Mútua
O filme Okja (2017), de Bong Joon-ho,
dramatiza precisamente essa ideia de espécies companheiras e vulnerabilidade
mútua. Okja, a super-porca geneticamente modificada, não é exatamente
"natural" — foi criada por uma corporação para ser o produto
perfeito: carne abundante, baixo custo de produção, marketing
"ecológico". Mas na fazenda isolada onde passa a infância, Okja
desenvolve uma relação profunda com Mija, a menina que a criou. Não uma relação
de dona e pet, mas de companheirismo: brincam juntas, se protegem mutuamente,
comunicam-se numa língua que não precisa de palavras.
Quando a corporação vem buscar Okja
para o abate, Mija parte numa jornada para salvá-la. E aqui o filme faz algo
crucial: não apresenta Okja como vítima passiva nem Mija como salvadora
heroica. Ambas são vulneráveis. Mija é uma menina pobre, sem poder, que
enfrenta corporações multinacionais, polícia, sistema judiciário. Okja é um
animal de produção, propriedade legal da empresa, destinada ao matadouro. Elas
só têm uma à outra. E a força do filme reside em mostrar que essa
vulnerabilidade compartilhada não é fraqueza — é potência ética.
Há uma cena devastadora no matadouro,
quando Okja é separada de Mija e colocada numa gaiola junto com centenas de
outras super-porcas. A câmera demora-se nos olhos aterrorizados dos animais,
nos seus gritos (que são inequivocamente gritos de pavor), na violência
industrial da linha de abate. Bong Joon-ho não estetiza o horror — ele o mostra
cru, quase documental. E nesse momento, a questão não é mais "Okja
simboliza o quê?" A questão é: isso acontece. Bilhões de animais morrem
assim, todos os dias. E nós comemos seus corpos sem pensar nessa violência.
O filme termina de forma ambígua. Mija
consegue comprar a vida de Okja (com um porquinho de ouro que seu avô lhe deu),
mas não pode salvar os outros. A câmera fecha no olhar de Okja vendo suas
companheiras serem levadas ao abate. Não há redenção total. Não há final feliz
que absolva o espectador. Há apenas o reconhecimento: participamos desse
sistema. Somos cúmplices dessa necropolítica. E se Okja nos comove mais que
notícias de fome humana, isso não nos absolve — isso revela algo sobre a
economia afetiva que governa nossa relação com a vulnerabilidade: respondemos
mais facilmente a sofrimentos individualizados, corporificados, com os quais
podemos estabelecer empatia direta.
3.3. Judith Butler: Vidas Precárias e o
Luto Possível
Judith Butler, em Vida Precária e
Quadros de Guerra, propõe que a política se organiza em torno de uma questão
fundamental: quais vidas são reconhecidas como dignas de luto? Algumas mortes
importam, são noticiadas, são choradas publicamente. Outras mortes — migrantes
afogados no Mediterrâneo, crianças palestinas bombardeadas, trabalhadores
mortos em desabamentos — essas mortes não recebem nome, não ganham obituário,
não mobilizam comoção. São vidas não passíveis de luto, o que significa que, em
certo sentido, já estavam mortas antes de morrerem de fato.
Butler não fala especificamente de
animais, mas seu argumento se estende naturalmente a eles. A vida animal, na
ordem capitalista contemporânea, é radicalmente não passível de luto. Matamos
bilhões de animais por ano — mas não choramos por eles, não fazemos luto, não
reconhecemos essas mortes como perdas. Elas acontecem fora do enquadramento do
lamentável. E no entanto: quando vemos Balthazar morrer, quando vemos Okja
aterrorizada, quando vemos Bambi perder a mãe — choramos. Por quê?
Porque a representação artística
reenquadra essas vidas. Dá nome, dá rosto, dá narrativa. Transforma a vida
animal abstrata ("animais de abate") em vida singular (Okja,
Balthazar, Bambi). E ao fazer isso, força uma redistribuição do luto: torna
passível de luto aquilo que a ordem social marca como não-lamentável. Isso é
uma operação política. Não no sentido de que vai mudar legislações (embora
possa), mas no sentido mais radical de que reconfigura a partilha do sensível,
obriga-nos a reconhecer como vidas plenas aquilo que habitualmente tratamos
como recurso ou propriedade.
Mas Butler também nos alerta: nem toda
representação de vulnerabilidade é emancipatória. Há representações que
espetacularizam o sofrimento, que pornografizam a dor, que transformam a
precariedade em consumo estético. A questão, então, não é apenas mostrar o
animal vulnerável, mas como mostrá-lo. Okja funciona porque não oferece catarse
fácil. Bresson funciona porque não sentimentaliza Balthazar. Graciliano
funciona porque não redime o sofrimento de Baleia com apelo a ordens
superiores.
Terceira tese: a representação de
animais vulneráveis só é ética quando reconhece a vulnerabilidade como condição
compartilhada, não como atributo do outro que contemplamos à distância segura.
Vulnerabilidade não é piedade; é reconhecimento de interdependência radical.
Somos vulneráveis com os animais, não vulneráveis aos animais. E essa distinção
é tudo.
IV. NECROPOLÍTICA E VIDAS DESCARTÁVEIS:
DO ANIMAL AO INVISÍVEL URBANO
4.1. Achille Mbembe: O Direito de Matar
Achille Mbembe, em Necropolítica,
expande e desloca o conceito foucaultiano de biopolítica. Para Foucault, a
modernidade se caracteriza por um poder que faz viver e deixa morrer — um poder
que se ocupa da gestão da vida, da saúde, da população. Mbembe argumenta que
isso é insuficiente para pensar o colonialismo, a escravidão, os genocídios
contemporâneos. Nesses contextos, o poder não apenas "deixa morrer" —
ele faz morrer, ativamente produz a morte como tecnologia de controle. A
necropolítica é o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, quem
importa e quem é descartável.
E aqui chegamos ao nó que conecta a
questão animal com nosso projeto mais amplo sobre intermidialidade dos
invisíveis. Porque a necropolítica não governa apenas corpos racializados nas
colônias ou nas periferias urbanas contemporâneas — ela governa todos os corpos
inscritos como matáveis, incluindo os animais. A linha que separa a população
em situação de rua (corpos que podem morrer sem que isso constitua escândalo)
dos animais de abate (corpos produzidos para morrer) não é linha de espécie,
mas linha necropolítica: ambos são governados pelo direito de matar.
Voltemos à fotografia de Kevin Carter:
a criança sudanesa desnutrida, agachada, e o abutre esperando. Essa imagem
cristaliza a lógica necropolítica. O abutre não é vilão — é apenas um animal
fazendo o que abutres fazem: aguardando carniça. A violência não está no
pássaro, mas no sistema que produziu aquela fome, aquela criança à beira da
morte, aquela situação onde um fotógrafo pode tirar a foto e depois ir embora
(o que Carter fez, e pelo que foi duramente criticado, e pelo que eventualmente
se suicidou). A criança, ali, está na mesma posição estrutural que um animal:
vida nua, vida exposta, vida que pode morrer sem que ninguém seja
responsabilizado.
Mas a imagem faz mais: ao colocar
criança e abutre no mesmo enquadramento, explicita a continuidade entre vida
humana abandonada e vida animal. Não é que a criança seja "como" um
animal (o que seria insulto racista); é que ambos estão sob o mesmo regime
necropolítico que decide quais vidas merecem proteção e quais podem ser
deixadas à morte. O abutre será sempre abutre; a criança não deveria estar
naquela posição. Mas está. E a fotografia força-nos a ver o impensável: que a
ordem necropolítica produz corpos humanos como produziria corpos animais —
corpos descartáveis, corpos sem luto, corpos cuja morte é estatística.
4.2. Da Sé às Periferias: Corpos
Invisibilizados e a Cosmética da Miséria
Em nosso trabalho sobre o Massacre da
Sé (2004), analisamos como sete pessoas em situação de rua foram assassinadas
enquanto dormiam nas calçadas do centro de São Paulo. Durante anos, esses
corpos foram invisíveis — não para a polícia que os expulsava, não para os
lojistas que os enxotavam, mas invisíveis como vidas que importam. Quando foram
mortos, subitamente tornaram-se visíveis — mas como quê? Como vítimas cujas
mortes exigem justiça? Ou como corpos que, infelizmente, ocupavam o espaço
errado?
Alguns veículos humanizaram as vítimas:
deram nomes, histórias, famílias — operação que, no vocabulário de Bentes,
corresponderia a uma denúncia que não embeleza a violência, mas a expõe em sua
crueza para impedir que o espectador se acomode em piedade consumível. A
estética da fome, tal como Glauber Rocha a praticou no Cinema Novo, usa a
violência formal para chocar, para forçar o espectador a confrontar as
estruturas que produzem miséria. Não há catarse confortável; há apenas
desconforto produtivo.
Outros veículos, porém, trataram o
evento numa chave que oscilava entre neutralidade burocrática e "limpeza
social que deu errado" — não celebrando explicitamente, mas também não
escandalizando-se verdadeiramente, oferecendo uma cosmética: limpeza visual,
distanciamento seguro, enquadramento que permite ao espectador sentir-se
comovido sem ter que confrontar sua cumplicidade estrutural no sistema que
produz aquela exclusão. A cosmética da fome, argumenta Bentes, transforma
miséria em mercadoria estética, permite ao espectador consumir o sofrimento
alheio sem exigência ética de ação.
E essa oscilação revela a operação
necropolítica em ação: pessoas em situação de rua ocupam uma zona de
indeterminação entre cidadão (titular de direitos) e vida nua (matável). São
humanos, sim — mas humanos cujas vidas não valem como as outras vidas. São,
estruturalmente, análogos aos animais vulneráveis que temos examinado:
Gregor-inseto enclausurado no quarto, Baleia sacrificada porque adoeceu,
Balthazar trabalhado até a exaustão, Okja destinada ao matadouro.
O mesmo vale para representações de
animais. Há representações críticas (Bresson, Bong Joon-ho, Graciliano) e
representações que estetizam o sofrimento animal para gerar comoção sem
consequência. Quando uma propaganda da WWF mostra um urso-polar magro numa ilha
de gelo derretendo, provoca empatia — mas que tipo de empatia? Uma que leva à
ação, ou uma que permite ao espectador sentir-se sensível sem modificar
comportamento? Uma estética da crise ecológica, ou uma cosmética que transforma
catástrofe em imagem bela e consumível?
4.3. Guernica: Quando o Animal Grita
por Nós
Voltemos, finalmente, a Picasso.
Guernica (1937) é provavelmente a obra de arte mais conhecida sobre violência
política do século XX. Representa o bombardeio da cidade basca pelos nazistas,
um dos primeiros ataques aéreos contra população civil. E no centro da
composição cubista-expressionista, entre corpos humanos retorcidos, há um
cavalo. O cavalo tem a boca aberta num grito silencioso, o corpo atravessado
por uma lança, a língua pontiaguda como faca. É a imagem do sofrimento
absoluto.
Por que Picasso coloca um cavalo no
centro do massacre? Há interpretações nacionalistas (o cavalo como símbolo da
Espanha), psicanalíticas (o cavalo como id torturado), formalistas (o cavalo
como composição dinâmica). Mas há também uma leitura mais simples e mais
perturbadora: o cavalo grita porque não pode falar. Os humanos em Guernica têm
bocas abertas, mas são bocas distorcidas, irreconhecíveis — mal conseguimos
distinguir rostos. O cavalo também não tem rosto reconhecível — mas tem grito.
Um grito que não articula palavras, que não pode ser traduzido em demanda
política, mas que ressoa.
O grito do cavalo é o grito daqueles
que não têm voz na ordem do discurso. É o grito dos sem-voz — e aqui
"sem-voz" não significa ausência de som, mas ausência de
reconhecimento como fala legítima. Quando uma pessoa em situação de rua grita
na rua, ouvimos como ruído. Quando um animal grita no matadouro, se é que
ouvimos, ouvimos como som ambiente. Esses gritos não são reconhecidos como
fala, não interpelam, não fazem demanda que nos obrigue a responder. Mas
Picasso, ao colocar o grito animal no centro da cena do massacre, força-nos a
ouvi-lo como fala. Não fala articulada, não fala que possa ser parafraseada —
mas fala que demanda reconhecimento.
E aqui conectam-se todas as linhas
deste ensaio: a vida nua que Agamben identifica, o olhar que Derrida encontra,
o Tu que Buber reconhece, a vulnerabilidade compartilhada que Haraway
reivindica, a necropolítica que Mbembe mapeia — todas convergem na figura do
animal vulnerável que grita sem ser ouvido, que olha sem ser visto, que morre
sem ser pranteado. E todas convergem também na figura do morador de rua, do
refugiado, do favelado, do indígena, do corpo racializado, de todos aqueles que
a ordem necropolítica marca como matáveis.
4.4. Intermidialidade e Resistência:
Arquivo, Corpo, Resto
Voltemos à estrutura do nosso projeto
maior: Intermidialidade dos Invisíveis — Corpos, Arquivos e Restos. Esses três
termos organizam três formas de presença/ausência: os CORPOS que estão mas não
são vistos (o morador de rua, o animal no matadouro); os ARQUIVOS que
documentam mas também apagam (fotografias, filmes, textos que representam os
invisíveis mas frequentemente os objetificam); os RESTOS que sobrevivem como
traços do que não pôde ser inteiramente destruído (o osso que resta do corpo
consumido, a memória que persiste apesar do arquivo, o grito que ressoa apesar
do silenciamento).
Os animais vulneráveis que atravessam
este ensaio — Baleia, Balthazar, o cordeiro, o cavalo de Guernica, Okja — todos
funcionam simultaneamente como corpos, arquivos e restos. São CORPOS: presença
física irredutível que resiste à significação total. Quando Graciliano descreve
Baleia sangrando, quando Bresson filma Balthazar espancado, quando Zurbarán
pinta o cordeiro amarrado — esses são corpos que não podem ser totalmente
traduzidos em conceito, que mantêm opacidade material.
São ARQUIVOS: objetos de representação
que carregam memória, que documentam violências. Baleia arquiva a necropolítica
da seca nordestina, a história dos retirantes, a formação social brasileira
baseada em abandonos estruturais. O cordeiro de Zurbarán arquiva séculos de
teologia sacrificial, de liturgias que sacralizam violência. Okja arquiva a
industrialização da morte animal, os matadouros globalizados, a mercantilização
de tudo que vive.
São RESTOS: aquilo que sobrevive depois
que o sistema necropolítico tentou eliminá-los — não como redenção, mas como
testemunho da própria violência. Baleia morre, mas seu capítulo permanece,
re-lido geração após geração de brasileiros que reconhecem na cadela algo
fundamental sobre a condição nacional. Balthazar morre, mas as imagens de seu
olhar circulam, interpelam espectadores décadas depois. O cordeiro é
sacrificado, mas a pintura persiste, testemunhando a ambiguidade irredutível da
sacralização da morte.
A intermidialidade importa porque
diferentes meios produzem diferentes formas de presença/ausência. A literatura
pode dar voz interior (Baleia pensando em preás), mas não pode mostrar o corpo
real. O cinema pode capturar o olhar (os olhos de Balthazar), mas não pode
acessar a subjetividade. A pintura pode condensar símbolo (o cordeiro
sacrificial), mas congela o tempo. A fotografia pode documentar o instante (a
criança e o abutre), mas não pode narrar antes nem depois. Cada meio tem suas
potências e seus limites. E é no entre esses meios — na intermidialidade — que
às vezes surge uma verdade que nenhum meio sozinho poderia capturar.
Quando documentários sobre o Massacre
da Sé combinam testemunho oral, fotografia de arquivo, reconstituição dramática
— quando Jonathas de Andrade monta a exposição Olho da Rua (2009) com fotos
tiradas por pessoas em situação de rua alternadas com textos poéticos — quando
um romance como Vidas Secas é adaptado para cinema por Nelson Pereira dos
Santos (1963) e depois estudado em sala de aula e citado em manifestos
políticos e relido em saraus de periferia — nesses trânsitos entre meios, algo
resiste à captura total. E esse resto irredutível é, paradoxalmente, o que
mantém viva a possibilidade de resistência.
No contexto brasileiro específico, essa
intermidialidade dos restos adquire ressonância particular. Porque o Brasil é
país fundado em acumulação de restos: restos da colonização, restos da
escravidão, restos de projetos desenvolvimentistas que sempre prometeram futuro
mas produziam apenas ruínas. E os corpos descartáveis — animais e humanos — são
os restos vivos desses projetos. Baleia, em 1938, já era resto: resto da
promessa republicana de integração nacional, resto do sonho modernista de
superar atrasos. E os sete mortos da Sé, em 2004, também eram restos: restos da
promessa democrática pós-ditadura, restos do milagre econômico que nunca chegou
às periferias.
Mas se são restos, não são restos
inertes. São restos que testemunham, que interpelam, que se recusam ao
esquecimento total. Todo ano, no aniversário do Massacre da Sé, há
"deitaços" — performances onde ativistas se deitam nas calçadas para
lembrar os sete mortos. Baleia continua sendo lida, chorada, discutida. Okja
circula em plataformas streaming, gerando debates sobre veganismo e direitos
animais. Guernica viaja em exposições, continua chocando espectadores com o
grito mudo do cavalo. Esses são restos ativos, restos que trabalham contra o
apagamento.
CONCLUSÃO: ÉTICA DA PRECARIEDADE,
POLÍTICA DO COMUM
Chegamos ao fim deste percurso com mais
perguntas que respostas — o que, para um ensaio filosófico, não é falha mas
método. Percorremos quatro movimentos conceituais, cada qual mobilizando
diferentes linguagens artísticas e diferentes quadros teóricos, todos
convergindo numa inquietação fundamental: o que significa responder eticamente
à vulnerabilidade do outro quando esse outro não pode articular sua demanda em
termos que reconheçamos como fala?
Vimos com Agamben que a separação entre
humano e animal não é natural, mas produto de uma "máquina
antropológica" que funciona criando vida nua — vida desprotegida, matável.
Vimos que essa operação governa tanto os corpos animais quanto os corpos
humanos inscritos como descartáveis: Gregor-inseto, Baleia moribunda, o
cordeiro sacrificial, mas também os retirantes de Vidas Secas, as vítimas do
Massacre da Sé, os moradores de rua que morrem de frio nas calçadas enquanto a
cidade dorme. A vida nua não é exceção; é fundamento.
Vimos com Derrida, Buber e Berger que a
questão não é olhar o animal, mas ser olhado por ele — e sustentar esse olhar
sem traduzi-lo em significação confortável. O burro Balthazar nos olha.
Frida-veado nos olha. E nesse encontro de olhares não há síntese, não há
compreensão mútua total — há apenas reconhecimento de uma alteridade que nos
interpela e que não podemos simplesmente ignorar. A ética começa não quando
respondemos ao outro, mas quando admitimos que o outro escapa à nossa
compreensão e ainda assim nos demanda resposta.
Vimos com Haraway e Butler que
vulnerabilidade não é fraqueza individual, mas condição relacional. Somos
vulneráveis com os outros, não vulneráveis aos outros. E essa vulnerabilidade
compartilhada — entre Mija e Okja, entre o leitor e Baleia, entre o espectador
e o cavalo de Guernica — não deve ser fonte de paralisia, mas de
responsabilidade. Se dependemos uns dos outros para sobreviver (humanos de
humanos, humanos de animais, animais de humanos), então a vida do outro não é
assunto que nos seja exterior. É questão que nos constitui.
E vimos com Mbembe e Bentes que a ordem
contemporânea funciona como necropolítica: não apenas deixa morrer, mas faz
morrer, ativamente produz vidas como descartáveis. E que essa produção não
distingue rigorosamente entre espécies: os mesmos mecanismos que transformam
animais em carne de abate transformam humanos periféricos em corpos matáveis. O
que não significa igualar humanos e animais (o que seria violência), mas
reconhecer que ambos estão sob o mesmo regime de governo pela morte.
Então, para que serve representar
animais vulneráveis? Se toda representação corre o risco de objetificar, de
espetacularizar, de transformar sofrimento em consumo estético — para que
insistir? A resposta não pode ser instrumental ("para gerar empatia",
"para mudar comportamentos"). Essas justificativas são frágeis porque
pressupõem que a arte funciona como pedagogia, o que raramente é verdade. A
resposta tem que ser mais modesta e mais radical ao mesmo tempo.
Representar o animal vulnerável —
quando feito criticamente, sem sentimentalismo consolador, sem redenção fácil —
é uma forma de interromper o fluxo necropolítico que normaliza a morte. É criar
um espaço onde o corpo matável torna-se, ainda que brevemente, corpo visível,
corpo que importa, corpo passível de luto. Não porque a representação salva o
animal (não salva), não porque a arte redime a violência (não redime), mas
porque testemunha. E o testemunho, mesmo quando impotente para prevenir o dano,
mantém viva a memória de que o dano ocorreu. Mantém viva a possibilidade de que
outro mundo — onde esses corpos não fossem descartáveis — seja pensável.
Os animais que atravessaram este ensaio
— Baleia e seu sonho com preás, Balthazar e seu olhar indecifrável, o cordeiro
amarrado para o altar, Gregor-inseto morrendo sozinho, Okja aterrorizada no
matadouro, o cavalo de Guernica gritando sem voz, a criança diante do abutre —
nenhum deles foi salvo por ser representado. Mas foram vistos. E nesse ver há
um compromisso ético mínimo: não desviar o olhar. Não confortar-se em piedade
que não obriga a nada. Reconhecer que participamos do sistema que produz essas
vidas como matáveis. E que esse reconhecimento, por mais doloroso, é condição
necessária (ainda que insuficiente) para qualquer política emancipatória.
A intermidialidade importa porque
nenhum meio sozinho pode capturar a complexidade dessa questão. A literatura
pode dar voz, mas não pode mostrar. O cinema pode mostrar, mas não pode acessar
interioridade. A pintura pode condensar, mas não pode narrar. A fotografia pode
documentar, mas não pode contextualizar. É no trânsito entre esses meios —
quando Vidas Secas vira filme, quando o Massacre da Sé vira memorial e
documentário e performance, quando a imagem de Carter circula em jornais e
depois em galerias e depois em salas de aula — é nesses trânsitos que às vezes
emerge algo que resiste à captura total. Um resto. Um traço. Um grito que não
pode ser inteiramente silenciado.
No contexto brasileiro, essa
insistência em representar os vulneráveis — animais e humanos — adquire
urgência específica. Porque continuamos sendo país onde corpos podem ser
tratados como descartáveis, onde a necropolítica não é exceção autoritária mas
norma de gestão populacional. E porque temos, ao mesmo tempo, tradição
artística potente de resistência a esse descarte: de Graciliano a Glauber, de
Carolina Maria de Jesus aos documentários contemporâneos sobre periferias, de
Lygia Clark às performances de coletivos de arte urbana.
Terminamos, portanto, não com
prescrições, mas com uma exigência ética mínima: que continuemos olhando. Que
não nos consolemos em leituras alegóricas que transformam o animal em mero
símbolo do humano. Que não nos acomodemos em empatia estéril que não gera
compromisso. Que reconheçamos nos animais vulneráveis não apenas metáforas de
nossa própria precariedade, mas companheiros nessa precariedade — no sentido
forte que Haraway dá ao termo: seres com quem nos tornamos, seres cujo destino
está entrelaçado ao nosso.
E que reconheçamos, finalmente, que a
questão animal não é separável da questão dos invisibilizados humanos. Porque
ambos — animais de abate e moradores de rua, animais de laboratório e
refugiados, animais de rinha e trabalhadores precarizados — todos habitam a
mesma zona de indistinção produzida pela máquina necropolítica. Não se trata de
igualar ontologicamente humanos e animais (o que seria simplificação violenta),
mas de reconhecer que a mesma lógica os governa: a lógica que decide quais
vidas importam e quais podem ser descartadas.
Pensar os animais vulneráveis na
representação artística é, portanto, pensar os fundamentos mesmos da comunidade
política: quem conta como vida, quem merece proteção, quem pode ser enlutado. É
pensar o comum não como identidade compartilhada, mas como vulnerabilidade
compartilhada. E é nessa vulnerabilidade — exposta, sem garantias, sempre à
mercê da violência do outro — que reside, paradoxalmente, a única base possível
para uma ética que não se funde na força, mas no reconhecimento da fragilidade
mútua.
Porque só quem sabe que pode ser ferido
pode compreender o que significa ferir. E só quem reconhece sua própria
precariedade pode responder eticamente à precariedade do outro — seja esse
outro humano, animal, ou alguma figura que habita a zona de indistinção onde
todas as categorias entram em colapso e só resta o corpo exposto, o corpo
vulnerável, o corpo que pede, sem palavras: não me mates.
Para o leitor brasileiro que chegou até
aqui: Baleia, 86 anos depois de publicada, continua nos olhando. Continua
demandando reconhecimento. Continua decodificando a necropolítica que governa
tanto bichos quanto gente na margem. E talvez o pensamento ético brasileiro —
se é que construiremos algum que não seja mera reprodução de humanismos
importados que nunca nos incluíram plenamente — comece precisamente aí: no
olhar de uma cadela moribunda que sonha com preás, no grito mudo de um cavalo
pintado, no corpo de um burro que não podemos deixar de ver. Porque esses
corpos — animais vulneráveis representados — são também nossos corpos. São os
restos que não puderam ser totalmente apagados. São a memória viva de que outro
mundo é necessário. E que esse mundo só virá quando reconhecermos que não há
ninguém — nenhum humano, nenhum animal — que possa ser legitimamente
descartado.
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ZURBARÁN, Francisco de. Agnus Dei. Óleo
sobre tela, 38 × 62 cm, c.1635. Museo del Prado, Madrid.
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