SUTURAS, FISSURAS, RUÍNAS
"Se a dor do outro
não doer em mim, eu desconheço o amor."
(São Paulo, outubro de
2022)
Plano 0
Azulejo português sangra
quando você rasga. Adriana Varejão sabe disso. São Paulo também.
Eu tinha uma luz pérola
na cabeça quando entrei na cracolândia. Luz de amor incondicional que enviava
para tudo e todos — prédios, carros, vitrines, gente. Amor universal, abstrato,
generoso. Aquele amor bonito que cabe bem em frase motivacional.
Amor que esquecia
justamente quem mais precisava dele.
Plano 1 — Exterior —
Pinacoteca — 16h
Saí da exposição Suturas,
Fissuras, Ruínas com a cabeça cheia de feridas pintadas e o coração cheio
de insights. Varejão tinha passado a tarde me mostrando que parede colonial tem
carne, que história não cicatriza, que beleza arquitetônica esconde
carnificina. Eu tinha passado a tarde tirando foto das legendas para parecer
culto.
Mochila de couro nas
costas. Calça jeans. Tênis surrado. Fone de ouvido — pequeno escudo urbano,
marca registrada do flâneur contemporâneo.
Decidi ir a pé até o
Airbnb que tinha alugado perto do metrô Santa Cecília. Dois quilômetros e meio.
O corpo andando capta o que o mapa esconde — pelo menos é o que dizem os livros
de viagem contemplativa que lemos em aeroporto.
A luz de outubro tinha
aquela qualidade crua do inverno paulistano — nem fria, nem quente, apenas
dura. Céu branco-acinzentado, suspenso. O tipo de luz que não perdoa fachada
suja nem rosto cansado.
Atravessei a Praça da
Luz. Turistas fotografavam a estação neoclássica. Um homem dormia encolhido na
escadaria. Ninguém ajustava o ângulo da câmera para incluí-lo no enquadramento.
Edição visual
instantânea.
Varejão entenderia — ela
pinta justamente o que cortamos da foto.
Plano 2 — Exterior —
Jardim da Luz — 16h15
Parei no jardim para
ajustar o ritmo. Tirei fotos: bancos de ferro, árvores do século XIX, gramado
tentando manter ordem que nunca se completou. Depois deletei tudo.
Pressentimento que não soube decifrar.
Ali comecei a prática.
Meditação caminhando —
aquela coisa que aprendemos em retiro de fim de semana, com instrutora que
estudou seis meses na Índia e agora cobra em dólar. Técnica milenar budista
adaptada para ocidental ansioso que quer transcendência mas não abre mão do
Airbnb com ar-condicionado.
Funciona assim: você
imagina luz envolvendo tudo ao redor. Luz pérola, espessa, envolvendo a cidade
inteira.
Você respira e envia amor
incondicional. Para os prédios. Para as árvores. Para os carros. Para as
pessoas — todas, sem distinção, sem exceção.
Amor cósmico. Amor
universal. Amor vegano, cruelty-free, com certificado de origem.
Amor de quem tem fone de
ouvido e passagem de volta.
Fechei os olhos três
segundos. Respirei. Abri. Segui.
O cheiro mudou entre uma
quadra e outra.
Plano 3 — Interior — Café
Girondino, Praça da República — 16h40
Entrei no Girondino
praticando aquilo que Walter Benjamin chamaria de flânerie — e que em português
claro significa andar sem rumo porque você tem tempo livre e dinheiro no bolso.
Flanar é privilégio.
Baudelaire flanava porque não precisava pegar ônibus às 5h da manhã. Eu flanava
porque tinha Airbnb reservado e não precisava estar em lugar nenhum até
segunda-feira.
Café antigo, resistente à
pasteurização. Mesas de mármore. Espelhos manchados pelo tempo. Balcão de
madeira escura carregando décadas. Esse lugar é autêntico, pensei. Como
se autenticidade fosse mérito de quem apenas passa, não de quem sobrevive
trabalhando ali todo dia.
Público misto:
funcionário público lendo jornal, artista solitário no canto, gente cansada
tomando café em silêncio. Sentei perto da janela. Posição estratégica de
observador — aquele que vê sem ser visto, que analisa sem ser analisado.
Pedi café curto.
Fora, a Praça da
República fervia: camelôs negociando, turistas perdidos com mapa aberto,
trabalhadores cortando caminho, pombos disputando migalhas.
Continuei meditando.
Enviei luz para a praça, para os vendedores, para os transeuntes. Amor
incondicional descendo sobre todos. Harmonia possível envolvendo a cidade.
A luz começou a falhar
ali.
Não a luz do céu — a luz
que eu inventava. Como se algo rachasse discretamente sob a superfície da
meditação. Desconforto sem nome. Sirenes ao longe.
O garçom trouxe o café:
"Hoje está agitado lá fora."
Não perguntei onde era
"lá fora".
Levantei antes de
terminar. Paguei. Algo me puxava.
Plano 4 — Exterior — Rua
Helvétia — 17h05
A calçada estava vazia.
Estranhamente vazia.
Outros pedestres tinham
desviado quadras antes — GPS intuitivo, código paulistano de sobrevivência que
aprendi tarde demais.
Recoloquei o fone.
Selecionei música. Continuei a prática.
Envio luz pérola para
esta rua. Envio amor incondicional para todas as pessoas que moram aqui. Para
todos os seres que habitam esta parte da cidade. Amor que não julga, não
escolhe, não separa.
Fechei os olhos por
alguns segundos. Respirei fundo.
Quando abri, estava
cercado.
(Corte seco.)
Não foi transição. Foi
emboscada mística.
Aproximadamente mil e
quinhentos corpos sendo empurrados em bloco. A polícia executava a técnica do
"efeito manada" — deslocar massa humana, limpar território, varrer
gente para outro lugar como quem varre entulho.
Coreografia sem música.
Corpos andando porque não há alternativa. Polícia empurrando. Gente se deixando
empurrar. A cidade expulsando os próprios órgãos.
Fiquei parado. Travado no
meio do fluxo.
A violência moderna não é
explosiva. É organizada, eficiente, quase elegante na crueldade burocrática.
Sirenes. Rádios crepitando. Botas marchando em sincronia. Ninguém grita.
Ninguém corre.
Apenas empurram. Apenas
se deixam empurrar.
Tirei o fone de ouvido.
Não havia música possível
ali.
E aí caiu a ficha da
ironia brutal, da piada cósmica, do paradoxo que a meditação de R$ 3.000 o fim
de semana não ensina:
Eu estava enviando amor
incondicional para tudo e todos — menos para eles.
Nas minhas orações
abstratas, nos meus rituais de luz pérola importados da Califórnia via YouTube,
nas minhas meditações caminhando pelas ruas de São Paulo com fone Bose e
roteiro no Google Maps, eu os invisibilizava.
Mandava amor para
"todas as pessoas" enquanto desviava deles duas quadras antes.
Abençoava "todos os seres" enquanto acelerava o passo. Imaginava
harmonia universal enquanto editava a realidade como turista editando foto no
Lightroom.
A luz que eu enviava
passava por cima deles. Contornava. Subia. Não os tocava.
Amor incondicional —
desde que incondicional não signifique olhar nos olhos, cheirar o cheiro,
sentir o desconforto.
Agora não tinha como
desviar.
Agora não tinha filtro,
enquadramento, edição.
Comecei a olhar.
Um homem de uns quarenta
anos me devolveu o olhar com ferocidade que me atravessou. Não era raiva de
mim. Era raiva de estar ali, de ser problema urbano resolvido com cassetete e
deslocamento forçado.
Outro, mais jovem, tinha
espasmos nas mãos — abstinência corroendo por dentro.
Uma mulher abraçava
sacola plástica contra o peito como se fosse a última posse do mundo. Talvez
fosse.
O povo real não é épico
nem puro. Ele não cabe em exposição da Pinacoteca. Não vira obra de Varejão,
não entra no catálogo de arte, não ganha legenda em três idiomas.
Ele incomoda.
Desorganiza. Cheira mal. Sofre sem moldura estética. A massa viva,
imprevisível, plural — aquela que não se deixa emoldurar por luz pérola nem por
boas intenções.
Eu estava ali com minha
mochila de couro, minhas referências artísticas, meu Airbnb esperando, meu amor
universal que esquecia justamente de amar o singular, o concreto, o fedorento,
o espástico, o empurrado.
O intelectual nunca está
inocente. Ele vê demais e age de menos. Vê Varejão pela tarde, acha potente
— outro adjetivo que usamos quando arte nos incomoda mas não o suficiente para
mudar qualquer coisa. Compra o catálogo. Posta três Stories. Medita enviando
amor cósmico mas atravessa a rua quando vê quem realmente precisa de abraço.
O cerco durou mais de uma
hora.
Então aconteceu algo que
não sei nomear direito.
Não parei de meditar —
mas a meditação mudou de natureza. Deixou de ser aquela prática segura,
controlada, enviada de longe. Deixou de ser amor incondicional abstrato para
virar amor incondicional encarnado.
Eu comecei a dissolver.
Deixei de ser o cara da
mochila que tinha saído do museu. Deixei de ser observador protegido por fone e
luz imaginária. Virei corpo no meio do fluxo.
Senti no meu corpo a dor
deles. A revolta. O cansaço nas pernas. A fome. A abstinência. O desamparo. A
humilhação de ser empurrado mais uma vez.
Tudo junto. Tudo de uma
vez.
A dor do outro doeu em
mim. Não como conceito, não como solidariedade política aprendida em livro, não
como compaixão budista bem-intencionada. Doeu de verdade. Fisicamente. No
peito. Nas pernas. Na garganta fechada.
Quando falo de compaixão,
é disso que falo: do momento em que você para de mandar luz de longe e vira a
própria dor que tentava abençoar.
Um êxtase às avessas. Ou
um êxtase verdadeiro — tipo Santa Teresa atravessada, tipo Paulo cegado na
estrada de Damasco. Só que na estrada de Santa Cecília. São Paulo,
cidade-revelação. São Paulo, cidade-ferida que não deixa você esquecer que
ferida existe.
A luz pérola que eu tinha
imaginado se dissolveu. No lugar, apareceu outra luz — a que vem de olhar de
verdade, de estar presente de verdade, de não poder mais cortar a cena.
Fui conduzido
misticamente a ver justamente quem sempre invisibilizei.
Inclusive — especialmente
— nas orações de retiro de fim de semana.
Quando finalmente
consegui me mover e sair dali, minhas pernas tremiam.
Voltei para o Airbnb —
apartamento charmoso, descrição no site: "experiência autêntica no coração
de São Paulo". O coração de São Paulo, aparentemente, fica a oito quadras
da cracolândia. Perto o suficiente para você dizer que conhece a cidade de
verdade. Longe o suficiente para dormir tranquilo.
Tomei banho. Água quente,
chuveiro com pressão boa. Fiquei sentado na cama sem conseguir fazer nada por
uma hora inteira. Ainda sentia aqueles olhos em mim. Aqueles corpos em mim.
Aquela dor andando dentro de mim.
No dia seguinte conectei
— e que palavra mais de intelectual contemporâneo: conectar. Como se
insight fosse wi-fi, como se compreensão fosse questão de ter a referência
cultural certa na hora certa.
Adriana Varejão pinta
feridas coloniais que fingimos que cicatrizaram. Eu tinha acabado de pagar
ingresso (meia-entrada, estudante) para ver essas feridas em ambiente
climatizado, com texto curatorial e lojinha de souvenirs na saída.
Tinha visto a exposição
pela tarde. Tinha achado potente, provocador, necessário. Comprei o
catálogo. Tirei foto do QR code. Postei Stories com hashtag #ArteContemporânea.
Ela rasga o azulejo para
mostrar a carne viva por baixo. Ela não permite que a história vire
cartão-postal, fachada restaurada, jardim bem cuidado, meditação
bem-comportada, crônica publicável.
Ela impede que a ferida
cicatrize rápido demais.
Três horas depois de ver
as obras dela, eu já fazia o que todo mundo faz: editando a realidade, cortando
o incômodo da foto, desviando duas quadras antes, colocando fone de ouvido,
enviando luz que não toca ninguém de verdade.
A gente vai ao museu ver
miséria emoldurada. Acha lindo, acha importante, acha que entendeu. Depois sai
e atravessa a rua quando vê a miséria sem moldura.
Mandando amor de longe.
Protegido pela bolha do turista espiritual.
A paisagem bonita como
máscara ideológica. O progresso como suavização da crueldade. A meditação como
álibi para não agir.
Até a cidade me forçar a
parar de cortar a cena.
Suturas, Fissuras,
Ruínas.
Entendi no museu. Mas só
entendi de verdade ali, cercado, dissolvido, atravessado no meio da
cracolândia.
Se a dor do outro não
doer em mim, eu desconheço o amor. Simples assim. Brutal assim.
Não sei o que fazer com
isso.
Vou escrever esta
crônica. Vou publicar. Vão me elogiar pela sensibilidade, pela coragem de expor
contradições. Alguém vai comentar: "Que texto potente!" Outra
pessoa vai salvar nos favoritos para ler depois e nunca mais abrir. Um
professor de sociologia urbana vai usar como exemplo em sala de aula.
E na próxima vez que eu
passar por ali, provavelmente vou desviar de novo.
Porque escrever sobre a
ferida é mais fácil que tocar a ferida. Teorizar sobre compaixão é mais
confortável que praticar compaixão. Transformar dor em literatura é nosso jeito
sofisticado de continuar não fazendo nada.
A crônica não fecha. A
caminhada não termina. A meditação não resolve. Amor incondicional não
significa nada se não for capaz de olhar nos olhos de quem fede, de quem
incomoda, de quem está sendo empurrado.
Escrever não cura a
ferida — apenas impede que ela cicatrize depressa demais. Ou garante que ela
vire conteúdo. Ainda não decidi qual.
Arte é fácil — você olha
e vai embora.
Difícil é quando a tela
te cerca por todos os lados e você percebe que nunca conseguiu sair do quadro.
Que você sempre esteve dentro da ferida que Varejão pinta. Que suas meditações,
suas orações, seu amor universal sempre foram apenas outro jeito de não ver.
Até o dia em que não tem
mais como não ver.
Até a dor do outro doer
de verdade.
Continuo andando.
Ainda estou andando.
Agora sem fone de ouvido.
Agora com a dor andando
junto.
E com a certeza incômoda
de que escrever sobre isso talvez não mude nada — mas silenciar seria pior.
Por Acir Dias
Pesquisa de pós-doutorado em Intermidialidade e Internarrativas dos Ínvisiveis
Pontifical Catholic University of Goiás
Orientação: Dra. Maria Aparecida
Rodrigues
Projeto "Escritas dos Invisíveis: Biografias de Quem o Mundo Não
Viu"
Centro, São Paulo, janeiro de 2024
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