O NOME QUE SOBREVIVEU AO HOMEM EDGAR MORIN, A ESCRITA DE SI E A ÉTICA DA ALTERIDADE Acir Dias …entre más atrapados estamos por el mundo, más difícil nos es atraparlo.” Edgar Morin I. A morte e o nome Edgar Morin morreu em Paris, no Hospital Americano, na tarde de 29 de maio de 2026, aos 104 anos. A frase é exata e, no entanto, esconde uma duplicidade que o próprio Morin teria saboreado: quem morreu naquela tarde foi um nome emprestado. Edgar Nahoum, nascido em 1921 numa família sefardita de Salônica, tornou-se Morin numa reunião clandestina da Resistência, em Toulouse, quando alguém, ao ouvi-lo apresentar-se, reteve mal o sobrenome. O pseudônimo de guerra colou, sobreviveu à guerra, sobreviveu ao homem que o adotou e sobrevive agora ao homem que o tornou célebre. O pensador que dedicou a vida a escrever vidas — a sua, a de seu pai, a de uma aldeia bretã, a das ilusões de uma geração — partiu sob um nome que ...
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O Último Inverno de Miranda Priestly Existe uma cena em A Última Ceia de Leonardo Da Vinci que a maioria das pessoas não vê. Não é a expressão de Judas, não é a mão aberta de Cristo sobre a mesa. É o que sobrou de espaço ao redor dos apóstolos — aquele vazio organizado que Da Vinci trabalhava com tanta deliberação quanto a luz: é a consciência de que aquela reunião já acabou antes de começar. Todos sentados à mesa, o pão e o vinho ali, e o que o pintor capturou não foi um jantar. Foi a última vez que aquele mundo faria sentido. Miranda Priestly senta-se à mesma mesa. Não a mesa da Runway , com suas pilhas de provas gráficas e assistentes em pânico. A mesa que ela ocupa é outra — aquela em que se reúnem os que comandaram um tipo de cultura que o século XXI decidiu não precisar mais. Editores que ditavam o que era belo. Diretores de arte que decidiam qual fotografia existia e qual seria descartada. Chefes de redação que sabiam, com a autoridade de quem nunca foi questio...