O NOME QUE
SOBREVIVEU AO HOMEM EDGAR MORIN, A ESCRITA DE SI E A ÉTICA DA ALTERIDADE
Acir Dias
…entre más atrapados estamos por el mundo, más difícil nos
es atraparlo.”
I. A morte e o nome
Edgar Morin morreu em Paris, no Hospital Americano, na tarde de 29 de
maio de 2026, aos 104 anos. A frase é exata e, no entanto, esconde uma
duplicidade que o próprio Morin teria saboreado: quem morreu naquela tarde foi
um nome emprestado. Edgar Nahoum, nascido em 1921 numa família sefardita de
Salônica, tornou-se Morin numa reunião clandestina da Resistência, em Toulouse,
quando alguém, ao ouvi-lo apresentar-se, reteve mal o sobrenome. O pseudônimo
de guerra colou, sobreviveu à guerra, sobreviveu ao homem que o adotou e
sobrevive agora ao homem que o tornou célebre. O pensador que dedicou a vida a
escrever vidas — a sua, a de seu pai, a de uma aldeia bretã, a das ilusões de
uma geração — partiu sob um nome que era, ele mesmo, uma ficção que o encontro
com o outro tornou verdadeira.
A homenagem reflexa, a que se multiplicará nos próximos dias, recorrerá
ao léxico previsível: pensamento complexo, religação dos saberes, os sete
saberes necessários à educação do futuro, a incerteza, o “optipessimismo”. Nada
disso é falso, e o inventário panorâmico tem a sua utilidade. Mas há nele um
risco que convém nomear de saída, porque é o avesso de tudo o que Morin
defendeu: o de domesticar um pensamento vivido e escrito num catecismo de
princípios, transformando uma epistemologia em doutrina e um homem em verbete.
Este ensaio recusa esse caminho. Lê Morin por um fio menos transitado — a
escrita de si como método de conhecimento e submete esse fio à prova mais dura
que se lhe pode aplicar: a de uma teoria da alteridade que pergunta, sem
complacência, o que acontece ao outro quando alguém escreve a si mesmo.
Quatro textos sustentam o percurso, dispostos em dois pares em tensão.
Anita Gramigna (2021) lê a autobiografia tardia de Morin como ocasião
epistemológica; Francisco Argüello Zepeda e Iveth Vilchis Torres (2020)
oferecem o panorama do pensamento complexo. Esses são os textos que leem Morin.
Os outros dois fornecem o instrumento crítico: Wolff-Michael Roth (2009)
interroga a ética da autoetnografia e o risco narcísico da escrita de si; João
Simões Cardoso Filho (2017) examina como o encontro etnográfico com o outro
transforma — e ameaça dissolver — aquele que escreve. Cruzar os pares, em vez
de resumi-los em fila, é a única maneira de a homenagem dizer algo que ainda
não foi dito.
II. As muitas nascenças: a autobiografia como ato de conhecimento
Gramigna toma I ricordi mi vengono incontro — autobiografia
publicada na França em 2019 e na Itália em 2020 — não como memória de um velho
ilustre, mas como dado epistemológico. Sua hipótese é incômoda e fecunda: a
empresa científica deve ser investigada também por um ângulo até aqui
negligenciado, o das histórias de vida dos protagonistas dessa atividade, pois
nelas se descobre como os traços de personalidade, os preconceitos, os modos de
relação aceleram ou retardam o conhecimento (GRAMIGNA, 2021, p. 72). A vida de
quem conhece não é anedota à margem do saber; é matéria do saber. É uma tese
que devolve a Morin, em chave teórica, aquilo que ele praticou a vida inteira:
a recusa de separar o sujeito que conhece daquilo que ele conhece.
O eixo que Gramigna extrai de Il paradigma perduto é a fórmula das
“muitas nascenças”. O humano, escreve Morin, é “sujeito de muitas nascenças” —
biológicas, mas também políticas e sociais —, e o que impressiona ali é a
palavra sujeito, que implica um papel decisivo no agir e no escolher
(GRAMIGNA, 2021, p. 75). Contra o homo sapiens que se ergueria acima da
natureza para produzir cultura, Morin vê natureza, sociedade, inteligência,
técnica, linguagem e cultura coproduzirem o humano ao longo de milhões de anos.
Duas nascenças recebem destaque, e ambas são, significativamente, do domínio do
que excede a razão: a sepultura, em que a consciência “objetiva” da morte se
cruza com a vontade “subjetiva” de superá-la pelo mito e pela magia; e a
pintura, “segunda nascença”, faculdade de produzir imagens, símbolos,
pensamentos. Daí a afirmação de originalidade densa que Gramigna sublinha: os
fenômenos mágicos são potencialmente estéticos, e os estéticos, potencialmente
mágicos (GRAMIGNA, 2021, p. 75). O conhecer, em Morin, vem tingido de cores
estético-poéticas e de mistério, e não apenas da luz fria da razão
demonstrativa.
É nesse registro que se entende a antropologia do homo sapiens-demens.
O homem é “louco-sábio”: a verdade humana comporta o erro, a ordem humana
comporta a desordem (GRAMIGNA, 2021, p. 80). Seria impossível, escreve Morin,
conceber uma antropologia fundamental que não desse lugar à festa, à dança, ao
rito, às lágrimas, ao gozo, à embriaguez, ao êxtase (GRAMIGNA, 2021, p. 80) —
porque é também na busca da desordem extática que o humano se integra ao outro,
à comunidade, ao universo. Conhecer não é eliminar o erro, mas reconhecê-lo
como constitutivo; e o sujeito que assim conhece é, na bela expressão que dá
título à segunda parte do ensaio de Gramigna, um “pesquisador errante de
verdade” — aquele que, para aprender, precisa antes desaprender. A figura do
homem insular que deve tornar-se peninsular condensa o programa: é preciso que
morra a noção do homem como ilha, “isolado da natureza e da própria natureza”
(GRAMIGNA, 2021, p. 82). A autobiografia é o lugar onde essa epistemologia se
deixa ver como vida, porque é ali que a pergunta “o que é a natureza humana?” e
a pergunta “quem sou eu?” deixam de poder ser separadas.
A própria ciência, nessa visão, tem estilos como a arte. Gramigna recolhe
de François Jacob — biólogo molecular que Morin conheceu e admirou — a ideia de
que a imaginação é a fonte energética da ciência, um meio de interrogar o mundo
para dele extrair uma história a contar; e que a natureza opera menos como o
relojoeiro cartesiano sonhado por Monod do que como um bricoleur, “boa e
generosa, mas um pouco suja, um pouco atrapalhada”, obrigada a trabalhar com o
que encontra e a dar-lhe nova vida (GRAMIGNA, 2021, p. 74, 81). Conhecer é
bricolagem, montagem do heterogêneo, e não dedução a partir de um princípio
único. Eis por que a forma do conhecimento moriniano teria de ser, ela mesma,
montagem — arquitetura de partes que se respondem, e não cadeia linear de causa
e efeito. A epistemologia da complexidade exige uma poética da composição.
Seria infiel a Morin, contudo, ler Gramigna como elogio sem reservas — e
ela própria não o faz. A estudiosa recusa-se a tomar os escritos pedagógicos
como o ápice do autor, situando-os antes numa casuística editorial que serve
“para dar fôlego às exigências de caixa” (GRAMIGNA, 2021, p. 76); e julga
injusta a sentença com que Morin, nas memórias, despacha Lévi-Strauss,
Althusser e Foucault como “espíritos sutis” cujos quadros mentais seriam, no
entanto, “simplistas e unilaterais” (GRAMIGNA, 2021, p. 78). O próprio Morin
chamou Il Metodo de “livro monstruoso”, que a alguns pareceu grosseira
vulgarização e a outros um amálgama incoerente de ciências e ciências humanas
(GRAMIGNA, 2021, p. 81). Reter isso não enfraquece a homenagem: fortalece-a.
Uma autobiografia que expõe as vaidades e as injustiças de quem a escreve é,
epistemologicamente, mais honesta do que qualquer monumento. O homo demens
não é o outro do sábio; é o sábio.
III. A escrita de si e o risco do “auto”
Se a autobiografia é ato de conhecimento, ela é também, e antes de tudo,
um problema ético e é aqui que o ensaio de Wolff-Michael Roth oferece o
instrumento de que precisamos. Roth grafa o método com uma barra, auto/etnografia,
para marcar que o “auto” (o si) e o “etno” (o povo, do grego éthnos,
nação, e gráphein, escrever) não se separam. O perigo que ele
diagnostica é preciso: quando o “auto” eclipsa o “etno”, o método degenera em
narcisismo, em “relação autoerótica”, na autobiografia lamuriosa do tipo coitado
de mim (ROTH, 2009, §10). Escrever o si sem reconhecer o outro, conclui
Roth, é “um ato (simbólico) violento contra a condição ética que vem com o ser
humano” (ROTH, 2009, §11).
Mas a mesma análise que aponta o risco aponta a redenção: o si só existe
em relação. Roth convoca uma linhagem inteira, Ricœur e o si-mesmo como um
outro, Levinas e a responsabilidade pelo outro que antecede a minha
liberdade e vem de um “anterior a toda memória”, Nancy e o ser singular
plural, Buber e o Eu-Tu, Bakhtin e o dialogismo, Vygotsky, para mostrar que
não há consciência que não seja, etimologicamente, con-scire, um
saber-com. Mesmo a escrita mais narcísica imaginável já implica o outro, porque
se faz numa língua, e a língua é sempre a língua do outro, que do outro me veio
e ao outro retorna, afetando-o (ROTH, 2009, §16). Não se faz autoetnografia sem
ética, ainda quando se use o “etno” como pretexto para falar de si.
O ponto decisivo, para uma leitura de Morin, é o que Roth diz da forma.
A escrita não é um recipiente neutro de conteúdos: a forma com que se escreve
é, ela mesma, ética. Roth cunha o trocadilho intraduzível w/ri(gh)ting escrever
que é, ao mesmo tempo, fazer justiça (righting) e rito —, e lembra, com
McLuhan, que o meio é a mensagem. A escrita monológica, que homogeneíza todas
as vozes na voz única do pesquisador, opõe-se à escrita dialógica, polifônica,
em que a ordem é desordenada porque exige muitas vozes (ROTH, 2009, §17, §20).
A boa autoetnografia tende ao coro; a má, ao monólogo do ego.
Roth ilustra o argumento com um exemplo improvável e exato. Um rapper que
narra a própria miséria, o pai sem dinheiro no Natal, os despejos, o casamento
que se desfaz — não fala apenas de si. Ao expor a própria vida diante de
milhões, ele canta a América: empresta a voz à mãe despejada, ao homem
submetido à triagem racial pela cor, ao soldado mandado a uma guerra injusta.
Em sua voz única ouvem-se as muitas vozes de um povo (ROTH, 2009, §21). É a
polifonia que Bakhtin reconhecia em Dostoiévski: a multiplicidade de
consciências pode habitar até um monólogo interior. A escrita de si, quando
assume a responsabilidade pelo outro, não silencia as outras vozes; faz-se
câmara de ressonância delas. O “auto” que serve ao “etno” não é menos pessoal é pessoal de outro modo, pessoal como quem
responde.
E essa responsabilidade, adverte Roth com Levinas, não começa em mim. A
responsabilidade pelo outro precede o meu engajamento e a minha decisão; vem de
aquém da minha liberdade, de um “anterior a toda memória” (ROTH, 2009, §13).
Não escolho ser responsável pelo outro: já o sou, desde antes, pelo simples
fato de existir num mundo partilhado. Escrever, então, não é um gesto solitário
que só depois se abre ao outro; é, desde o início, devolver ao outro a língua
que dele recebi. A questão nunca foi se a escrita de si implica o outro —
implica sempre —, mas se quem escreve assume ou recalca a implicação que já o
constitui.
Aplique-se isso a Morin, e o caso-prova é Autocritique, de 1959. O
livro é intensamente pessoal , o acerto de contas com o Partido Comunista —, e
no entanto não é confissão que se esgota em si: é a dissecação da “beatitude
mística do crente”, a anatomia da ilusão de toda uma geração de intelectuais.
Não por acaso o historiador Tony Judt o considerou a melhor autobiografia de um
ex-comunista. Ali o “auto” serve ao “etno”: Morin escreve a si mesmo para
escrever a cegueira de uma época. O mesmo vale para o episódio do Salk
Institute, que Gramigna reconstrói: ao narrar a própria conversão intelectual
às teorias da auto-organização, em 1969, e o fracasso do diálogo com Monod,
Morin escreve menos a sua biografia do que a surdez de uma cultura científica
inteira diante de Atlan, Maturana e von Foerster (GRAMIGNA, 2021, p. 74).
Seria, porém, uma traição à lição de Roth fingir que Morin foi imune ao
risco. É lícito perguntar se o Morin centenário, acumulando volume sobre volume
de memória com aquela “meticulosa vontade reconstrutiva” que Gramigna registra,
não roça por vezes o ponto em que o “auto” ameaça engolir o “etno”. O catálogo
de nomes, as contas a ajustar — a sentença injusta sobre Foucault é o sintoma, são exatamente o lugar em que o monumento ao
si arrisca devorar a relação. O que importa não é absolver Morin nem
condená-lo, mas reconhecer que a linha é tênue, que se caminha ali no fio da
navalha. E essa imagem nos conduz ao quarto texto.
IV. O etnógrafo transformado: conhecer é arriscar-se a perder-se
Há, no ensaio de Cardoso Filho, uma lembrança de infância que vale por
uma tese. Criança, ele é acordado de madrugada pelo pai para ver, na televisão,
a chegada do homem à Lua, e ouve, perplexo, o astronauta repetir “a Terra é
azul”, quando todos esperavam que descrevesse a Lua (CARDOSO FILHO, 2017, p.
236). Eram perspectivas diferentes, de pontos de visão diferentes e a moral é exata: certa visão de si mesmo só
se conquista quando nos encontramos no outro, fora de si. Para ver a Terra, foi
preciso sair dela. Para ver-se, é preciso o outro. A frase fora de lugar do
astronauta é o primeiro gesto etnográfico: olhar a casa desde um lugar que a
casa não previa.
João Simões Cardoso Filho inverte a pergunta de Roth. Roth interroga o
que a escrita de si faz ao outro; Cardoso Filho interroga o que o encontro com
o outro faz a quem escreve. O título já contém a aposta “encontrar-se (ou
perder-se?) como pessoa” , e a tese é que só nos conhecemos reconhecendo a
nossa alteridade, caminhando até o Outro, para encontrá-lo e, nesse ato,
encontrar a nós mesmos (CARDOSO FILHO, 2017, p. 236). A gramática é a de Buber:
na relação Eu-Tu o outro se faz presente como outro; na relação Eu-Isso,
instrumental, o outro é apenas meio para os meus fins. “O si mesmo sem o outro
é uma farsa, um simulacro” (CARDOSO FILHO, 2017, p. 236).
A cena de campo dá carne à tese. Estudando o Festival de Iemanjá nas
praias de Outeiro, em Belém, o pesquisador chega atrasado a uma festa de santo
e cumprimenta a sacerdotisa pelo nome: “Oi, Mãe Marina”. É repreendido com
aspereza — ela não é Mãe Marina; Marina é “apenas o cavalo”; quem ali está é a
Cabocla Mariana (CARDOSO FILHO, 2017, p. 239). É o momento que Roberto Cardoso
de Oliveira chamaria de “fricção interétnica”, e Cardoso Filho não o resolve
por cima: deixa-o operar. Pouco a pouco, andando de terreiro em terreiro, o
próprio corpo do etnógrafo começa a responder arrepios, palpitações, o toque de
“alguém” invisível , e a mãe de santo lhe anuncia que um dia ele também “vai
cair no santo”. O conselho de Malinowski, largar as anotações e viver o
acontecimento, revela-se então perigoso: ali, viver o rito é arriscar ser
refeito por ele. O pesquisador caminha, na sua própria expressão, “no fio da
navalha” (CARDOSO FILHO, 2017, p. 241).
E é aqui que Cardoso Filho reúne, quase sem o anunciar, um motivo que
devolve sentido ao pseudônimo de Morin: o motivo do nome que muda no encontro.
O alemão Curt Unkel recebe dos Apapocúva-Guarani, em 1906, o nome Nimuendajú, e
em 1922, ao naturalizar-se brasileiro, abandona o nome de família e incorpora o
nome indígena (CARDOSO FILHO, 2017, p. 244). Carlos Castaneda deixa de ser
antropólogo e torna-se participante, xamã, perdendo no caminho a qualidade
científica da escrita. Roger Bastide vira pai de santo no Brasil. A pessoa,
escreve Cardoso Filho, é persona, personagem, “tecida
coletivamente, no ‘útero’ social” (CARDOSO FILHO, 2017, p. 237); e, citando
Bastide por Laplantine, lembra que “sou mil possíveis em mim, mas não posso me
resignar a querer apenas um deles”. O si não é dado: é tecido, e pode ser
destecido e retecido pelo outro.
O mais notável é que Cardoso Filho lê toda essa experiência pelas
categorias do próprio Morin. Cita a definição moriniana de dialógica —
unidade complexa entre duas lógicas que se alimentam uma da outra, se
completam, mas também se opõem e combatem, distinta da dialética hegeliana
porque nela os antagonismos persistem, em vez de se suprimirem numa unidade
superior (MORIN, 2002, apud CARDOSO FILHO, 2017, p. 237) e cita o anel
recursivo, em que “os próprios produtos são produtores do que os produz”
(MORIN, 2002, apud CARDOSO FILHO, 2017, p. 237). Ora, é exatamente essa
a teoria de por que o etnógrafo se transforma: num anel recursivo, agir sobre o
outro é ser por ele constituído; quem conhece é produto da relação que produz.
Conhecer não é extrair informação à distância de um objeto; é constituição
mútua.
Cardoso Filho não toma, porém, o relativismo como ponto de chegada.
Aceita só em parte a cultura como “teias de significado” de Geertz, lembrando
que o humano não está apenas amarrado a essas teias: em certos momentos ele as
encarna — no corpo, na psique, na expressão coletiva (CARDOSO FILHO, 2017, p.
242). E recorre a Bourdieu, que reúne teorias logicamente excludentes mas não
racionalmente excludentes, fórmula que faz desaguar na racionalidade complexa
de Morin: aquela que reconhece os limites da lógica dedutivo-identitária, salva
a lógica como higiene do pensamento e a transgride como mutilação do
pensamento, recusando a ligação rígida entre lógica, coerência e verdade, pois
uma coerência interna pode ser racionalização irracional (MORIN, 2002, apud
CARDOSO FILHO, 2017, p. 243). A alteridade não dissolve a razão; obriga-a a ser
mais larga do que a identidade e o terceiro excluído.
Por isso o si é, para Cardoso Filho, irredutivelmente relacional.
Durkheim mostra que o potencial de humanidade só se realiza na socialização, no
contato com o outro; Marx, que até o nosso corpo é produto da relação de dois
outros; Buber, que no princípio é a relação, o “Tu inato” anterior ao próprio
Eu (CARDOSO FILHO, 2017, p. 236). “Sem o outro, eu mesmo não posso existir, já
que sou potencialmente muitos” (CARDOSO FILHO, 2017, p. 245). Não se trata de
uma generosidade ética acrescentada depois ao conhecimento; trata-se da
estrutura mesma do sujeito que conhece. A ética da alteridade não vem corrigir
a epistemologia: é a epistemologia, lida pelo seu avesso.
Aqui o pseudônimo de Morin deixa de ser curiosidade biográfica e se torna
o emblema de sua epistemologia. Edgar Nahoum tornou-se Morin num encontro — a
reunião clandestina, o equívoco do ouvido alheio —, um si tecido por uma
situação coletiva, um nome recebido do outro, como o de Nimuendajú. O pensador
do anel recursivo foi, ele mesmo, produto do anel. A teoria das muitas
nascenças de Gramigna e a teoria do nome tecido de Cardoso Filho convergem num
único ponto: Morin é o caso exemplar da sua própria tese. Não pensou a
complexidade de fora; nasceu, muitas vezes, dentro dela.
V. O cinema e o homem imaginário
O detalhe que o ensaio panorâmico deixa cair quase de passagem — a
observação de que Morin foi também “comunicador e poeta”, com obras ligadas ao
cinema e à publicidade — aponta para um Morin que a recepção brasileira,
capturada pela pedagogia, quase esqueceu: o fundador de uma sociologia do
cinema e da cultura de massa. Antes de “educação”, antes de “sete saberes”,
vieram Le Cinéma ou l’homme imaginaire (1956), Les Stars (1957), L’Esprit
du temps (1962) — livros em que o imaginário, o mito moderno, a estrela
como divindade laica e a indústria cultural são pensados não com o desprezo
apocalíptico então em moda, mas como uma segunda natureza do humano. A “segunda
nascença” de que falava Gramigna, a faculdade da imagem, encontra aqui o seu
prolongamento sociológico: o cinema é a máquina de imagens de uma espécie que,
desde a pintura das cavernas, nasce também pela imagem.
O ponto de fusão é Chronique d’un été (1961), o filme que Morin
realizou com o etnógrafo Jean Rouch e que parava transeuntes nas ruas de Paris
para fazer-lhes uma única pergunta: “você é feliz?”. É cinema-verdade e é
etnografia — e o que nele importa para o nosso argumento é a recusa deliberada
de apagar o cineasta. Em vez de simular uma câmera neutra, o filme faz com que
o espectador nunca esqueça a presença de quem filma. A forma é a tese. Filmar o
outro perguntando-lhe pela felicidade, e incluir-se na cena em vez de esconder-se
atrás dela, é a dialógica feita imagem, o Eu-Tu de Buber posto em película.
Roth diria que é w/ri(gh)ting com câmera; Cardoso Filho, que é o
etnógrafo dentro do quadro, exposto à transformação. Décadas antes de teorizar
a complexidade, Morin já praticava, com Rouch, a recusa do ponto de vista de
lugar nenhum.
Esse Morin do imaginário é o elo perdido entre a epistemologia e a ética
que este ensaio persegue. A recusa de pensar a literatura, a ciência ou a
imagem isoladamente não é, nele, uma tese acrescentada tarde: é o solo de toda
a obra, o mesmo gesto que, mais velho, levará o nome de pensamento complexo. E
é justamente o que a homenagem de tabela apaga, ao arquivar sob a rubrica
administrativa “comunicação, cinema e publicidade” aquilo que era o coração
imaginante de um pensamento. Quem reduz Morin aos sete saberes nunca viu o
filme em que ele aparece, hesitante, perguntando a uma operária se ela é feliz,
e não sabendo o que fazer com a resposta.
VI. Entre o sistema e a vida: o pensamento complexo e sua domesticação
Convém agora encarar a leitura panorâmica em sua melhor versão, para
medir o que ela ganha e o que perde. O ensaio de Argüello Zepeda e Vilchis
Torres, abrigado na coletânea Vertientes: Academia, Educación y Humanismo
(2020), é um mapa competente. Reconstrói a genealogia do pensamento complexo —
a teoria geral dos sistemas de Bertalanffy, a cibernética de Wiener, a teoria
da informação de Shannon e Weaver, a irreversibilidade de Prigogine, a
autopoiese de Maturana e Varela, a geometria fractal de Mandelbrot — e organiza
os princípios em quadro: incompletude e incerteza, recursão, holograma,
dialógica, auto-eco-organização, transdisciplina, ética universalista (ARGÜELLO
ZEPEDA; VILCHIS TORRES, 2020, p. 141). Daí avança para a antropo-ética, o laço
indivíduo-espécie-sociedade, a Tierra-Patria, os sete saberes. É, no
gênero, um bom resumo.
E contém, de passagem, um detalhe que a leitura padrão sempre subutiliza:
a observação de que Morin “incursiona no campo da comunicação, tendo obras
relacionadas com o cinema e a publicidade” (ARGÜELLO ZEPEDA; VILCHIS TORRES,
2020, p. 138). O cinema está ali, mencionado, Le Cinéma ou l’homme imaginaire, Les
Stars — e imediatamente ultrapassado em favor do catecismo da complexidade.
É o sintoma exato da domesticação. A leitura panorâmica converte uma
epistemologia vivida, escrita e recursiva num índice de princípios —
precisamente o tipo de saber compartimentado e doutrinário que Morin combateu a
vida inteira. Há uma contradição performativa em homenagear o pensador da
complexidade com uma tabela de seus princípios, como se o conteúdo
“complexidade” pudesse ser transmitido numa forma simples sem se desfazer no
caminho.
O antídoto, curiosamente, está no próprio volume. O prólogo de María
Luisa Bacarlett Pérez invoca Paul Virilio e O arte do motor (1993) para
lembrar o valor da demora, do trajeto e da espera, contra uma época da
velocidade e da imediatez que perde a capacidade de aguardar, de observar
detidamente, de deixar o conhecimento tomar o seu tempo (ARGÜELLO ZEPEDA;
VILCHIS TORRES, 2020, prólogo). É a chave que faltava. Il Metodo,
escrito ao longo de um quarto de século; os Journals que retornam por
décadas; a autobiografia de cem anos — tudo isso é a epistemologia como demora,
recusa da extração veloz da “informação” em favor de um conhecer lento,
recursivo, implicado. Morin insiste, com von Foerster, que a informação não
existe na natureza: somos nós que a extraímos dela (GRAMIGNA, 2021, p. 79). A
leitura apressada, que tudo resume em tabela, encena justamente a velocidade
contra a qual Morin advertiu.
Há, é justo dizer, um momento em que a vida irrompe na tabela. Ao tratar
da ética, Argüello Zepeda e Vilchis Torres recolhem a pergunta de Morin diante
de Hiroshima: não haveria, doravante, um antagonismo entre a ética do
conhecimento, que prescreve conhecer por conhecer sem se preocupar com as
consequências, e a ética da proteção humana, que exige um controle dos usos da
ciência? Hiroshima revelou que os poderes benfazejos da descoberta científica
podiam vir acompanhados de poderes terroríficos (MORIN, 2008, apud
ARGÜELLO ZEPEDA; VILCHIS TORRES, 2020, p. 146). Aí o pensamento complexo deixa
de ser quadro e volta a ser ferida: é a mesma razão que cura e que incinera, o
mesmo sapiens que é demens. Nesses instantes, o ensaio panorâmico
toca, sem querer, o que sua própria forma tende a recobrir — que a complexidade
de Morin não era um conforto intelectual, mas a recusa de descansar em qualquer
das margens.
VII. A forma como ética
Os quatro textos, cruzados, deixam emergir um único princípio: a forma da
escrita já é uma relação ética com o outro. É o w/ri(gh)ting de Roth; é
o Eu-Tu de Cardoso Filho encenado na prosa do encontro; é o tingimento
estético-poético do conhecer em Gramigna, onde magia e estética se
intercambiam; é a dialógica e o anel recursivo do próprio Morin. Para Morin, a
primeira pessoa não era narcisismo nem ornamento: era a assunção de uma
responsabilidade, a recusa de escrever a partir do não-lugar da terceira pessoa
neutra, que finge que quem conhece não está na cena. Escrever “eu” é responder
pelo que se vê. E a forma antidisciplinar — a trança de confissão e teoria, a
frase longa e respiratória, a recusa do jargão — é a dialógica feita sintaxe: a
ordem que carrega a sua desordem, o sapiens que carrega o demens.
É também aqui que a homenagem honesta precisa manter as duas mãos
abertas. A mesma primeira pessoa que assume responsabilidade pode coalhar em
monumento; a mesma abertura recursiva pode degenerar no velho que acerta
contas. Morin não é um santo do método; é o melhor argumento a favor do seu
próprio método, falhas incluídas. Conhecer é errar — homo demens —, e a
autobiografia que o admite é mais fiel à complexidade do que qualquer catálogo
de princípios que quisesse fazer de Morin um infalível. A ciência, escreveu ele
numa frase que Gramigna recolhe, não está em seus últimos desenvolvimentos, mas
em seu novo começo: ela balbucia e gagueja mal sai de suas equações (GRAMIGNA,
2021, p. 82). O mesmo se diga do homem que a pensou: ele balbuciou, gaguejou,
errou — e foi nisso, e não apesar disso, que pensou a vida.
Há, por fim, uma consequência formal que atravessa os quatro textos e que
vale enunciar. Se conhecer é bricolagem (Jacob, em Gramigna), se a forma é
justiça e rito (Roth), se a pessoa é tecido coletivo (Cardoso Filho) e se o
pensamento é dialógico (Morin), então a escrita que lhe corresponde não pode
ser a exposição linear de teses encadeadas: tem de ser montagem, arquitetura de
fragmentos que se respondem por contiguidade e contraste, como num filme. Não
por acaso Morin veio do cinema. Il Metodo não argumenta como um tratado;
orquestra como uma composição, em camadas que retornam, em motivos que
reaparecem transformados. A acusação de “amálgama incoerente” que ele próprio
registra é, lida ao contrário, o elogio mais justo: incoerente para quem espera
a cadeia dedutiva, coerente para quem entende que a complexidade só se escreve
em montagem. A forma da obra é a sua ética, e a sua ética é uma estética — a
recusa de separar o que o pensamento separador insiste em manter apartado.
VIII. O nome devolvido
Volto ao nome, porque é nele que tudo se fecha. “Morin” foi tomado de
empréstimo na clandestinidade e tornou-se verdadeiro; sobreviveu a Edgar Nahoum
e sobrevive agora a Edgar Morin. Uma vida é tecida, não dada, ensina Cardoso Filho; um si é plural, “mil
possíveis”; o humano nasce muitas vezes , ensina Gramigna — e, poderíamos
acrescentar, morre muitas vezes. O pensador que nos disse que os produtos são
produtores daquilo que os produz deixa-nos o próprio nome como última lição:
uma ficção recebida do outro, num encontro, que o conhecimento tornou real.
Dizia ele que, enquanto estivesse possuído pelas forças da vida, o
espectro da morte se mantinha à distância. As forças foram-se embora, agora,
para outro lugar. Resta o nome — tecido em cada um que o lê, dissolvido e
refeito a cada leitura, persona e personagem de uma humanidade
que ele quis pensar inteira. Que é, exatamente, o que ele disse que uma pessoa
era.
Referências
ARGÜELLO
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