O Último Inverno de Miranda Priestly



 Existe uma cena em A Última Ceia de Leonardo Da Vinci que a maioria das pessoas não vê. Não é a expressão de Judas, não é a mão aberta de Cristo sobre a mesa. É o que sobrou de espaço ao redor dos apóstolos — aquele vazio organizado que Da Vinci trabalhava com tanta deliberação quanto a luz: é a consciência de que aquela reunião já acabou antes de começar. Todos sentados à mesa, o pão e o vinho ali, e o que o pintor capturou não foi um jantar. Foi a última vez que aquele mundo faria sentido.

Miranda Priestly senta-se à mesma mesa.

Não a mesa da Runway, com suas pilhas de provas gráficas e assistentes em pânico. A mesa que ela ocupa é outra — aquela em que se reúnem os que comandaram um tipo de cultura que o século XXI decidiu não precisar mais. Editores que ditavam o que era belo. Diretores de arte que decidiam qual fotografia existia e qual seria descartada. Chefes de redação que sabiam, com a autoridade de quem nunca foi questionado, que o papel tinha peso e o peso tinha prestígio. Miranda Priestly é a rainha dessa mesa, e a mesa está sendo retirada de baixo dela.

O filme de 2006 não era sobre isso. Era sobre Andy Sachs — a jovem idealista que entra no reino e aprende que os reinos têm um preço. Miranda era o monstro necessário do conto: brilhante, cruel, inesquecível. Meryl Streep fez o que Meryl Streep faz, que é tornar impossível separar o papel da atriz, e Miranda Priestly entrou para a mitologia pop como vilã que todo mundo secretamente admirava.

Mas havia algo que o primeiro filme deixou apenas na borda da cena, como o vazio de Da Vinci: Miranda não era cruel por caráter. Era cruel por convicção. Ela acreditava, com a fé austera de quem nunca precisou justificar a própria fé, que o que fazia importava. Que uma capa de revista podia mudar o modo como uma geração inteira entendia o que é ser mulher no mundo. Que a moda não era superficialidade — era linguagem, era poder, era a única arte que todo mundo usa literalmente sobre o próprio corpo.

Ela não estava errada. Estava, talvez, atrasada.

O Diabo Veste Prada 2 chega em 2026 com uma premissa que a crítica da Rolling Stone chamou de "lembrete sóbrio de como muita coisa mudou em vinte anos". Andy Sachs é agora repórter investigativa premiada. A Runway sobrevive, mas sobrevive como sobrevivem as coisas que não entenderam bem o que aconteceu: de pé, mas sem saber exatamente por quê. Um bilionário comprou participação na editora. A inteligência artificial ameaça demissões em massa. As métricas substituíram o gosto. E Miranda Priestly — ainda interpretada por Streep, ainda de branco, ainda com a voz que parece cair do alto de um edifício — precisa agora suportar tsunamis de memes.

Não há metáfora mais precisa para o fim de uma era.


O meme é a antítese exata do editorial. O editorial era curado, lento, assinado, distribuído com critério. O meme é anônimo, instantâneo, infinitamente replicável, e não tem a menor paciência com autoridade. Miranda ditava o que era belo. O meme vota. São dois sistemas incompatíveis de atribuir valor, e o segundo ganhou — não porque fosse melhor, mas porque era mais rápido, mais barato e não precisava de uma editora-chefe para existir.

O que o segundo filme faz é equilibrar escapismo com lamentação. As roupas continuam esplêndidas. A trilha sonora provoca nostalgia calculada. Mas há algo de requiem no ar — e Miranda Priestly, no centro disso, não é mais o monstro. É a última pessoa na sala que ainda acredita que a sala importa.

Aqui é onde Da Vinci volta.

Na Última Ceia, cada apóstolo reage à revelação de Cristo de um modo diferente. Uns com espanto, outros com raiva, outros com negação. Leonardo estudou durante anos as expressões humanas — chamava isso de moti dell'animo, movimentos da alma — para conseguir pintar, num único instante congelado, a multiplicidade de como as pessoas recebem uma verdade insuportável.

Miranda Priestly não faz nenhum desses movimentos. Esse é o ponto.


Ela não grita. Não negocia. Não se curva. Em vez disso, faz algo que é muito mais perturbador: continua. Continua como se o mundo que está desaparecendo fosse uma temporada ruim de coleções, algo que passa. Sua crueldade não é sádica — é um ato de fé. Ela trata assistentes como lixo porque, no sistema em que ela acredita, a excelência tem um custo e o custo é pessoal. Ela humilha porque humilhar é, dentro desse sistema, uma forma de ensinar. É a pedagogia do altar.



O problema é que o altar foi desmontado. O jornalismo impresso perdeu a autoridade que justificava aquela pedagogia. A Runway existe agora como produto de streaming, posicionado algoritmicamente entre um documentário da National Geographic e um filme da Marvel. O contexto que dava sentido à tirania de Miranda Priestly simplesmente não existe mais.

E ela sabe. Esse é o último segredo do personagem.

Meryl Streep, em certas cenas, deixa escapar — por frações de segundo, quase imperceptíveis — que Miranda sabe. Que por baixo de toda aquela armadura de Manolo Blahnik e sarcasmo gelado há uma mulher que entende perfeitamente o que está acontecendo. Que o jantar acabou. Que ela está à mesa de Da Vinci, e que o único movimento que faz é continuar passando o pão como se os outros ainda fossem aparecer.

O filme acerta o tempo histórico com uma precisão que vai além da ficção. Enquanto O Diabo Veste Prada 2 estreava nas salas, o Met Gala de 2026 era patrocinado por Jeff Bezos e Lauren Sanchez — não por uma grife, não por uma corporação, mas por uma pessoa física. Pela primeira vez na história do evento mais hermético da moda global, o bilionário não foi convidado: ele comprou a mesa.

Pelas ruas de Manhattan, cartazes de protesto exibiam a imagem de um tapete vermelho com gás lacrimogênio. "Patrocinado pela empresa que financia o ICE." Nos metrôs, nos postes, na boca dos ativistas — a mesma leitura: Bezos não quer apenas dinheiro. Ele quer o que o dinheiro normalmente não compra. Comprou o Washington Post. Colocou sua mulher na capa da Vogue. Apareceu nos desfiles de Paris. Patrocinou o Met. É uma construção metódica de influência sobre os lugares onde a cultura se legitima — exatamente o enredo que o filme, lançado na mesma semana, coloca no centro da narrativa.

O que faz isso perturbador não é a ambição. Bilionários com ambição cultural não são novidade. O que perturba é a rendição do outro lado: o Met Gala aceitou. Anna Wintour — que por décadas vendeu a ideia de que o Met não se compra, que a entrada ali é mérito cultural, não cheque assinado — abriu a porta. E quando você vende aquilo que sempre disse não estar à venda, não perdeu apenas a credibilidade do evento. Perdeu a narrativa de que havia alguma coisa que o dinheiro não alcançava.

Miranda Priestly, no filme, enfrenta exatamente esse dilema: um bilionário entra na Runway pela porta dos fundos, via participação acionária, e começa a rearranjar a sala. Ela resiste. A diferença entre a ficção e o noticiário real é que, na ficção, a resistência tem dignidade. Na realidade, o tapete vermelho cedeu.

O filme não precisou inventar nada. Só precisou olhar pela janela.

Existe uma palavra do Renascimento italiano que define aquele vazio ao redor dos apóstolos: sprezzatura. O termo, consagrado por Baldassare Castiglione n'Il Cortegiano, significa a arte de fazer o difícil parecer fácil, o esforço imenso parecer ausência de esforço. Era o que os cortesãos cultivavam para distinguir a elegância do esforço bruto. É, se você quiser ser preciso, o que Miranda Priestly pratica em cada cena do filme.

Mas há outra leitura possível.

Sprezzatura também pode ser o nome daquilo que fazemos quando o chão está desaparecendo e nos recusamos a olhar para baixo. Quando continuamos andando não porque somos corajosos, mas porque parar seria admitir que não há mais onde pousar.

Miranda Priestly atravessa dois filmes e vinte anos de intervalo com essa elegância de quem não olha para baixo. O mundo do jornalismo impresso desaba, as revistas perdem circulação, a autoridade editorial vira meme, a IA ameaça as redações, e ela — ela pede o café, corrige uma vírgula, dispensa um assistente com um gesto.

Não é vilania. É luto em alta-costura.

Em 1917, Freud distinguiu luto de melancolia numa distinção que parece simples e não é. No luto, sabe-se o que foi perdido. O sujeito chora uma pessoa, um ideal, uma pátria — algo identificável. Com o tempo, o psiquismo libera o investimento emocional daquele objeto e segue. É doloroso, mas tem percurso.

Na melancolia, a perda é opaca. O sujeito sente o vazio, mas não consegue nomeá-lo. O mundo esvaziou, mas ele não sabe exatamente o quê. E porque não sabe o que perdeu, não consegue fazer o luto. A libido não se desprende do objeto — ela se volta contra o próprio eu. O melancólico não chora o mundo; ele sangra por dentro, sem diagnóstico, sem data de término.

Miranda Priestly é uma figura melancólica no sentido freudiano preciso. Ela não perdeu a Runway. Não perdeu o cargo, nem o prestígio, nem os convites. O que ela perdeu é mais difuso e mais grave: perdeu o mundo que dava sentido àquilo que ela faz. A autoridade do impresso, a soberania do gosto editorial, a crença de que uma fotografia numa página de papel podia mudar como as pessoas se veem — esse universo inteiro se desfez, e não deixou endereço.

O que o filme mostra, com inteligência rara para uma sequência hollywoodiana, é que Miranda não pode fazer o luto dessa perda porque não a reconhece como perda. Para ela, o mundo ainda é aquele. Deve ser aquele. Ela continua agindo como se a sala estivesse cheia, como se o gesto de sentar numa ponta da mesa ainda convocasse respeito, como se a hierarquia que ela encarnou durante décadas ainda fosse a arquitetura do real.

Isso não é teimosia. É o mecanismo clássico da melancolia: a recusa em desinvestir do objeto perdido. A libido presa a um mundo que não existe mais. E como esse mundo não pode ser recuperado, o investimento se volta para dentro — na forma de uma crueldade que ela dirige aos outros, mas que, no fundo, é autocrítica disfarçada de poder. Cada assistente que ela humilha é, em alguma escala inconsciente, o espelho de sua própria inadequação diante de um tempo que não a reconhece mais.

Há algo aqui que vai além de Miranda como personagem. Ela é o retrato de uma melancolia coletiva — a que acomete sociedades inteiras quando o modelo que as organizou começa a desmoronar. O jornalismo impresso não morreu de um dia para o outro; foi um processo lento, de desinvestimento gradual, de perda de circulação e de credibilidade, de migração do leitor, de queda dos anunciantes. E as pessoas que viveram dentro desse sistema — não só como profissionais, mas como crentes naquele modo de fazer circular sentido — ficaram como Miranda: de pé, com o gesto no lugar, sem exatamente saber o que fazer com uma sala vazia.

Freud dizia que o melancólico não pode ser contraditado. Não adianta mostrar a ele as evidências da perda. A questão não é cognitiva — é estrutural. E Miranda Priestly, mesmo quando o filme coloca diante dela todos os sinais do fim — os algoritmos, a IA, os memes, o bilionário comprando a sua mesa —, não muda a postura. Não porque seja obstinada. Porque mudar a postura seria reconhecer a perda. E reconhecer a perda significaria, finalmente, ter que chorar.



E essa, ela não sabe fazer.

Da Vinci pintou um jantar que já era despedida. David Frankel filmou uma rainha que já é fantasma. E Meryl Streep fez o que só ela sabe fazer: tornou impossível não sentir que os dois estão certos, e que o inverno que se aproxima é de todos nós.

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