CORPOS QUE FICAM
Três retratos da permanência










 

I. O peso do cuidado

Cheguei cedo demais. Janeiro ainda nem tinha aberto os olhos direito e o calor já estava inteiro, ocupando o ar como um corpo grande que não pede licença. O Belenzinho acordava devagar, mas o sol não. O sol vinha apressado, desses que não sabem esperar.



Eu tinha marcado uma entrevista com o Bahia. Horário combinado, conversa tranquila. A rua não trabalha com agenda. A rua trabalha com urgência.

Vi o pano vermelho primeiro. Depois, o corpo encolhido embaixo. Bahia não levantou quando me aproximei. Apenas virou a cabeça, devagar, como quem calcula quanto custa cada movimento.

— Não dá hoje não.

A voz saiu baixa, mas não fraca. Ele segurava uma banana no colo, metade descascada, parada no ar. Não comia. Apenas segurava.

Foi quando vi o pé.

Não o pé enfaixado, limpo, protegido — isso viria depois. Vi o pé como estava: inchado, roxo, aberto. A pele rompida em diagonal, do calcanhar até quase o tornozelo. Sangue seco nas bordas. Sangue fresco no meio. A carne viva exposta ao sol da manhã, às moscas, ao ar que arde.

Bahia na praça do Belenzinho, após o ataque. Foto: Arquivo pessoal

Senti o estômago revirar. Desviei o olhar.

Bahia percebeu.

— Foi o Alemão. O cachorro do Paraíba.

Disse isso sem raiva. Como quem relata o tempo. Choveu. Fez sol. O cachorro mordeu.

Os cães dele estavam mais longe que o normal. O marrom-avermelhado deitado sob a árvore, acordado, imóvel. O branco pintado de preto sentado na terra, olhando fixo para o corpo de Bahia. Nenhum dos dois se aproximava. Sabiam.

O Padre Júlio chegou com a mochila nas costas e o avental amarelo já vestido. Não disse bom dia. Ajoelhou direto na terra, na frente de Bahia, e abriu a mochila no chão. Gazes. Ataduras. Luvas. Soro. Algo verde embrulhado em papel toalha — folhas.

— Vou precisar tocar.

Bahia acenou com a cabeça. Fechou os olhos. Apertou a banana com mais força.

O cuidado entre Bahia e seus cães. Foto: Arquivo pessoal

O padre calçou as luvas devagar. Respirou fundo. Estendeu as duas mãos em direção ao pé, mas parou a centímetros da pele. Ficou assim, suspenso, as mãos pairando sobre a ferida como quem hesita antes de profanar algo sagrado.

Depois tocou.

Bahia não gritou. Apenas enrijeceu. Cada músculo do corpo ficou duro, tenso, visível sob a pele fina. Os dedos da mão trincaram a casca da banana. Os olhos continuaram fechados, mas as pálpebras tremiam.

O padre limpou a ferida com gaze embebida em soro. O líquido escorreu rosa pela lateral do pé, misturado ao sangue que ainda saía. O cheiro era forte — carne machucada, suor, terra. Bahia respirava pela boca, curto, rápido.

Eu estava em pé, a dois metros de distância, e não conseguia me mover. Não conseguia perguntar se ele precisava de algo. Não conseguia oferecer ajuda. Apenas ficava ali, testemunha inútil, sentindo o sol queimar a nuca e a impotência queimar por dentro.

O padre pegou as folhas verdes — eram folhas de mamona, percebi depois — e começou a colocá-las sobre a ferida. Uma a uma, cobrindo a carne exposta. Depois a gaze. Depois a atadura, volta após volta, apertando o suficiente para segurar, mas não o suficiente para doer mais.

Quando terminou, o pé estava branco. Limpo. Protegido.

Mas a dor continuava. Dava para ver na respiração de Bahia, que ainda não tinha voltado ao normal. Dava para ver na forma como ele segurava o próprio joelho, os dedos cravados na própria pele. Dava para ver porque ele continuava sem olhar para o pé, como se não olhar pudesse fazer a coisa não ter acontecido.

O padre tirou as luvas, guardou o material, ficou ajoelhado mais um instante. Não rezou. Não falou nada. Apenas ficou.

Depois levantou e foi embora.

Bahia abriu os olhos. Olhou para mim. Sorriu — um sorriso torto, cansado, que não chegava nem perto dos olhos.

— Depois a gente conversa.

Assenti. Perguntei se ele precisava de algo. Disse que não. Disse que os cachorros iam cuidar. Olhei para os cachorros. Eles continuavam longe. Continuavam olhando.



Antes de sair, virei para trás uma última vez.

Bahia ajeitava o pano vermelho sobre as pernas. Colocou a banana de lado, intacta. Tentou se levantar, apoiou a mão na árvore, ergueu o corpo devagar. O pé enfaixado pairou no ar por um segundo antes de tocar o chão. Quando tocou, o corpo inteiro de Bahia tremeu. Mas ele não caiu.

Os cães levantaram ao mesmo tempo. Vieram caminhando, devagar, e pararam dos dois lados dele. Não encostaram. Apenas ficaram perto, na distância exata que um corpo precisa de outro corpo para não desabar.

Bahia deu um passo. Depois outro. Não olhava para frente. Olhava para baixo, para o pé, para a terra, para o peso que o corpo insiste em carregar mesmo quando tudo dói.

Fiquei parada ali até eles sumirem atrás das árvores da praça. Três vultos cambaleantes sob o sol. Um homem. Dois cães. Nenhuma diferença que importasse.

A entrevista não aconteceu.

O que aconteceu foi isso: um corpo ferido, outro corpo cuidando, outros corpos sustentando. Nenhuma palavra que servisse. Nenhuma explicação que bastasse.

Só o peso. O peso de continuar existindo quando a cidade inteira preferia que você sumisse.

E o cuidado. O cuidado que não salva, que não cura, que só adia. Mas que adia. Que segura. Que diz: hoje não.

Hoje não.





II. Quando a casa cai

Voltei no dia seguinte. Não sei bem por quê. A entrevista tinha sido cancelada. Bahia tinha dito "depois". Depois podia ser nunca.

Mas voltei.

Encontrei a praça vazia de gente, cheia de sol. Dez da manhã e o calor já era violência. As árvores faziam sombras curtas, insuficientes. Carros passavam devagar na rua. Uma criança pedalava uma bicicleta pequena na calçada. O mundo seguia indiferente.

A casa estava montada.

A casa de Bahia: colchão, lona, tábuas e sombra. Foto: Arquivo pessoal

O colchão esticado no chão. A lona transparente com flores vermelhas amarrada nos galhos, puxada, formando um teto que não protegia de nada, mas dizia: aqui. As tábuas brancas encostadas formando parede que não fechava. E no meio, Bahia.

Ele vestia o vestido vermelho agora. Vermelho vivo, quase agressivo contra a terra seca. Por cima, o casaco bege de pelo sintético caía aberto pelos ombros. Óculos escuros grandes. Colar no pescoço. Arrumado. Inteiro. Como se a noite anterior não tivesse acontecido.

Mas tinha acontecido.




O pé enfaixado denunciava. Branco demais. Limpo demais. Fora do lugar naquele corpo queimado de sol.

Bahia caminhava em círculos lentos ao redor da casa, ajeitando coisas. Pegava uma garrafa pet vazia, colocava ao lado da tábua. Puxava a lona, checava se estava presa. Dobrava um pano. Movimentos pequenos, deliberados. Cada passo custava — dava para ver na forma como ele deslocava o peso para o pé bom, como evitava apoiar o enfaixado por inteiro.

Mas ele não parava.

Os cães observavam à distância. O marrom-avermelhado estava deitado sob uma árvore fora da casa, ofegante. O branco pintado de preto sentado mais perto, mas ainda longe. Imóveis. Esperando algo.

Bahia parou. Olhou para eles. Assoviou — um som baixo, curto.

Nada.

Os cães não se moveram.

Ele assoviou de novo. Bateu palma duas vezes. Chamou um nome que não entendi.

O marrom-avermelhado levantou a cabeça. Olhou. Não veio.

Bahia ficou parado ali, no meio da casa, de frente para os cachorros. A mão ainda no ar, congelada no gesto de chamado. Esperando.

O silêncio durou tempo demais.

Depois, devagar, o cachorro marrom se levantou. Caminhou. Três passos. Parou. Mais dois passos. Parou de novo. Como quem testa o chão. Como quem não sabe se ainda é seguro.

Chegou perto de Bahia. Cheirou o ar. Cheirou a roupa. Cheirou o pé enfaixado sem tocá-lo.

Bahia se agachou. O movimento foi lento, cuidadoso. Segurando o próprio peso com a mão na árvore. Quando chegou à altura do cachorro, estendeu a mão e encostou na cabeça dele.

O bicho fechou os olhos.

Foi quando o outro veio. O branco pintado de preto levantou de uma vez e correu. Chegou entre os dois, empurrou o focinho na mão de Bahia, pedindo espaço. Os três ficaram assim: homem agachado, dois cães disputando o afago, na sombra escassa da praça.

Bahia ria. Um riso baixo, quase sem som, que sacudia os ombros. Afagava os dois ao mesmo tempo, uma mão em cada cabeça. Os cachorros se esfregavam nele, empurravam com o focinho, lambiam a mão, o braço, o rosto.

E então começaram a brigar.



Não brigar de verdade — brincar. Mas com força. O marrom pulou em cima do pintado. Os dois rolaram na terra. Mordiam o ar perto do pescoço um do outro. Rosnavam. Se agarravam com as patas dianteiras. Levantavam poeira.

Bahia se afastou, ainda agachado, para não ser derrubado. Ficou só olhando. O sorriso tinha sumido. A expressão agora era outra coisa — atenção absoluta, corpo tenso, pronto para intervir.

Os cães rolavam cada vez mais rápido. O pintado conseguiu virar por cima. Abocanhou a orelha do marrom. O outro soltou um ganido — curto, agudo.

Foi só um segundo. Mas foi suficiente.

Bahia levantou rápido demais. Esqueceu o pé. O peso caiu todo no lado enfaixado. O corpo dele balançou, os braços abriram buscando equilíbrio. A boca se contorceu numa careta de dor que ele tentou sufocar, mas não conseguiu.

Caiu de joelhos.

As mãos fincaram na terra. A cabeça baixou. Os óculos escuros caíram de lado no chão. Ele ficou assim, de quatro, respirando fundo, alto, tentando controlar algo que não se controla.

Os cachorros pararam na hora. Separaram. Ficaram parados, olhando para ele. Ofegantes. Línguas de fora. Mas imóveis.

Ninguém se aproximou.

Bahia continuou de joelhos. Não levantava. Apenas respirava. Alto. Pesado. As costas subindo e descendo sob o vestido vermelho. O pé enfaixado esticado para trás, sem tocar o chão.

Quanto tempo ele ficou assim? Um minuto? Cinco? Eu não sei. Só sei que não consegui me mover. Não consegui perguntar se ele precisava de ajuda. Porque já tinha entendido: ele não queria ajuda. Ele só queria que a dor passasse. E a dor não passa porque alguém pergunta.

Aos poucos, a respiração foi normalizando. Bahia apoiou uma mão no chão, depois a outra. Empurrou o corpo para cima. Levantou devagar, testando o pé, deslocando o peso aos poucos. Quando ficou em pé, pegou os óculos do chão, limpou a terra, colocou de volta no rosto.

Olhou para os cachorros.

Eles continuavam parados, esperando.

Bahia estendeu a mão. Chamou com um gesto.

Os dois vieram. Mansos agora. Devagar. Chegaram perto e se encostaram nele, um de cada lado, sem pular, sem forçar. Apenas encostaram os corpos.

Bahia colocou uma mão no dorso de cada um. Ficou assim, em pé, sustentado. Ou sustentando. Não dava para saber.

Depois caminhou até o colchão. Sentou. Deitou de lado, com cuidado. O cachorro marrom subiu e deitou sobre ele — pesado, inteiro, cobrindo o peito. O pintado se acomodou nas costas, colado.

Bahia fechou os olhos.

A lona fazia barulho com o vento. Um barulho frágil, contínuo. Plástico batendo em folha. Folha batendo em galho.

A casa não era casa. Era três corpos deitados na terra sob um pedaço de plástico florido. Mas era o que tinha. E o que tinha era suficiente para impedir o desaparecimento. Para dizer: ainda estamos.

Fiquei olhando até ter certeza de que ele estava respirando normal.

Depois fui embora.

Não escrevi a entrevista naquele dia. Não escrevi nada. Só fiquei sentada no ônibus, olhando pela janela, pensando no corpo de Bahia caindo. No grito que ele não deu. Na dor que ninguém testemunhou além de mim e dos cachorros.

E nos cachorros. Que pararam de brigar na hora. Que esperaram. Que voltaram. Que encostaram.

Casa não é parede. Casa é quem não te deixa cair sozinho.

Ou, se você cair, quem fica esperando você levantar.




III. A noite em que tudo quebrou

Terça-feira, 26 de novembro. Seis da manhã. O sol ainda baixo, mas já anunciando o calor.

Bahia acordou antes dos cachorros.

Levantou devagar, sem pressa, e começou a arrumar a casa. Puxou o colchão para esticar as dobras. Ajeitou a lona que tinha escorregado durante a noite. Pegou uma garrafa pet e foi até a torneira pública na paróquia encher de água fresca. Voltou. Bebeu. Deu de beber para os cachorros em uma marmita velha de alumínio.

Depois trocou de roupa.

Tirou a camiseta surrada em que tinha dormido. Vestiu o vestido verde-água — leve, comprido, amarrado na cintura. Penteou o cabelo com os dedos molhados. Olhou para baixo, para o próprio corpo, ajeitou o tecido.



Estava pronto.

Bahia no dia anterior ao ataque. Foto: Arquivo pessoal

Os cachorros levantaram, se espreguiçaram, sacudiram a terra do pelo. Farejaram o chão ao redor da casa. Marcaram território. Voltaram para perto de Bahia e ficaram ali, esperando o próximo movimento.

Ele pegou uma sacola de pano vazia e começou a caminhar em direção à paróquia. Os cachorros seguiram atrás. Rua vazia. Céu limpo. Terça-feira comum de novembro.

Na porta da igreja, o Padre Júlio já estava organizando o café da manhã. Avental amarelo. Cabelos brancos. Carrinhos de supermercado cheios de pães, frutas, garrafões de água. Duas freiras ajudando. Três voluntários montando caixas.

Bahia chegou perto, acenou. O padre acenou de volta. Não houve conversa. Bahia pegou dois pães, colocou na sacola. Pegou três bananas. Uma laranja. O padre colocou mais um pão. Bahia agradeceu com a cabeça e foi sentar na calçada.



Comeu devagar. Deu metade de um pão para os cachorros. Eles mastigaram rápido, pediram mais. Ele deu o resto. Ficou só com as bananas.

O padre se aproximou. Sentou ao lado.

— Como é que tá?

— Tá.

— O pé?

— Qual?

O padre riu. Bahia também.

Bahia e Padre Júlio: presença mútua. Foto: Arquivo pessoal

Ficaram ali, sentados na calçada, sem falar mais nada. Só olhando a rua acordar. Um carro passou. Outro. Um homem de bicicleta. Uma mulher com sacola voltando do mercado.

Depois de um tempo, o padre levantou.

— Vou fazer a ronda. Quer vir?

— Vou.

Levantaram. Os cachorros levantaram junto. Saíram andando pela rua, o padre empurrando o carrinho de supermercado, Bahia ao lado, os dois cachorros seguindo atrás.

Pararam na esquina para conversar com outro morador de rua. Homem mais velho, barba longa, sentado na sombra de uma parede. O padre deu pão. Deu água. Perguntou do braço — estava inchado. O homem disse que estava melhorando. Mentira óbvia. O padre não insistiu.

Seguiram.

Mais adiante, encontraram duas mulheres e um menino debaixo de uma marquise. O padre deu comida. As mulheres agradeceram, o menino não falou nada. Apenas pegou o pão e começou a comer sem esperar.

Bahia ficou um pouco para trás durante essas paradas. Não falava. Só observava. Os cachorros ficavam junto dele, atentos.

Quando voltaram para a paróquia, já era quase meio-dia. O sol estava alto, pesado. O padre guardou o carrinho. Tirou o avental. Ficou de pé na calçada junto com Bahia.

Foi quando os cachorros começaram a rosnar.

Baixo. Contínuo. Os dois ao mesmo tempo.

Bahia olhou. Na outra ponta da praça, um homem vinha caminhando. Mais velho que Bahia. Mais sujo. Arrastando uma mochila grande. E ao lado dele, um cachorro. Pastor alemão. Grande. Focinho preto. Coleira improvisada com corda.

— Paraíba — disse Bahia, baixo.

O padre olhou. Não disse nada.

Paraíba atravessou a praça na diagonal, vindo em direção à paróquia. O pastor alemão vinha solto agora, a coleira arrastando no chão. Quando chegou perto das árvores onde ficava a casa de Bahia, o cachorro parou. Farejou. Levantou a perna e mijou no tronco.

Os cachorros de Bahia rosnaram mais alto.

— Ei — chamou Bahia, a voz firme. — Ei.

Os dois pararam de rosnar, mas não saíram do lugar. Ficaram tensos, pelo arrepiado, olhando fixo para o pastor alemão.

Paraíba chegou perto. Não cumprimentou. Apenas falou:

— Tem café ainda?

O padre respondeu:

— Acabou. Volta amanhã.

— Amanhã é longe.

— É o que tem.

Paraíba cuspiu no chão. Olhou para Bahia. Depois olhou para os cachorros. Depois para a casa montada na praça.

— Tá morando aí agora?

— Tô.

— Desde quando?

— Faz tempo.

— Não tava aí semana passada.

— Tava sim.

— Não tava não.

O padre se colocou entre os dois.

— Tem espaço para todo mundo. Ninguém precisa brigar por sombra.

Paraíba deu um passo para o lado, encarando o padre.

— Não tô brigando. Só tô perguntando.

— Já perguntou. Já responderam.

Os cachorros de Bahia tinham se levantado. Estavam entre Bahia e Paraíba agora, tensos. O pastor alemão também tinha se levantado. Estava mais longe, perto das árvores, mas olhando. A coleira no chão. Livre.

Paraíba deu um passo para trás.

— Amanhã eu volto.

Virou e foi embora, chamando o cachorro. O pastor alemão demorou a obedecer. Ficou parado mais uns segundos, olhando para os outros cachorros. Depois foi.

Quando sumiram na esquina, Bahia soltou o ar. Não tinha percebido que estava prendendo a respiração.

O padre colocou a mão no ombro dele.

— Se der ruim, você me chama.

— Não vai dar ruim.

— Se der.

— Tá bom.

O padre entrou na igreja. Bahia voltou para a casa. Sentou no colchão. Os cachorros se acomodaram ao lado dele, ainda alertas, olhando em direção à esquina onde Paraíba tinha sumido.

A tarde passou devagar. Calor. Silêncio. Algumas pessoas passando na rua. Nada de diferente.

Por volta das seis, Bahia comeu uma das bananas. Deu a outra para os cachorros dividirem. Bebeu água. Deitou cedo, antes do sol se pôr completamente.

Os cachorros deitaram perto, mas não em cima. Ficaram dos dois lados do colchão. De guarda.

A noite caiu.

Bahia dormiu leve. Acordava com qualquer barulho. Um carro passando. Alguém gritando longe. Os cachorros se mexendo. Voltava a dormir. Acordava de novo.

Por volta das três da madrugada, ouviu vozes.

Longe ainda. Mas vindo na direção da praça.

Bahia abriu os olhos. Não se mexeu. Só ficou escutando.

As vozes foram ficando mais perto. Duas vozes. Dois homens. Discutindo. Um deles — reconheceu a voz — era Paraíba.

Os cachorros já estavam acordados. Em pé. Rosnando baixo.

Bahia se levantou devagar. Ficou ali, parado, esperando. Podia sair correndo. Podia gritar. Podia entrar na igreja e bater na porta até alguém abrir.

Mas a casa estava ali. O colchão. A lona. As tábuas. Tudo que ele tinha.

Se saísse agora, quando voltasse não teria mais nada.

Então ficou.

As vozes chegaram na praça. Paraíba e outro homem, mais novo, que Bahia não conhecia. Bêbados. Cambaleando. Rindo alto de algo.

Viram Bahia. Pararam de rir.

— E aí, princesa — disse Paraíba. — Ainda tá aí?

Bahia não respondeu.

— Falei com você.

— Tô ouvindo.

— Então responde.

— Tô aqui. Você tá vendo.

Paraíba deu um passo à frente. Os cachorros rosnaram. O outro homem riu — um riso agudo, nervoso.

— Olha os cachorrinho. Você acha que eles fazem o quê?

— Não sei — disse Paraíba. — Vamos ver.

Assobiou. Chamou:

— Alemão! Vem cá!

Do outro lado da praça, uma sombra se moveu. O pastor alemão veio correndo. Parou ao lado de Paraíba, ofegante.

Os cachorros de Bahia rosnaram mais alto. Mostraram os dentes.

Bahia deu um passo à frente, colocando-se entre os homens e os cachorros.

— Não precisa disso.

— Precisa não? Então sai da frente.

— Não vou sair.

— Vai sim.

Paraíba fez menção de avançar. O pastor alemão avançou junto.

Foi quando tudo aconteceu rápido demais.

O cachorro marrom pulou na frente de Bahia. O pastor alemão pulou em cima dele. Os dois se agarraram. Rosnaram. Rolaram. O pintado pulou junto, tentando morder o pastor, mas era grande demais, rápido demais.

Bahia tentou separar. Entrou no meio. Gritou. Puxou.

Sentiu o dente.

Não no braço. Na perna. O pastor tinha largado o marrom e girado. Pegou a panturrilha de Bahia e apertou. Apertou forte. Sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

Bahia gritou.

O cachorro soltou. Saiu correndo. Paraíba e o outro homem já estavam longe, quase na esquina, correndo bêbados, tropeçando.

Bahia caiu sentado. Segurou a perna. Estava escuro demais para ver, mas sentiu o líquido quente escorrendo entre os dedos. Sentiu a dor — aguda, latejante, crescendo.

Os cachorros vieram. Cheiraram a perna. Cheiraram Bahia. Ficaram ali, agitados, ofegantes, sem saber o que fazer.

Bahia deitou de costas no chão. Olhou para o céu. Não tinha estrela nenhuma. Só escuro.

Respirou fundo. Tentou pensar. Mas só conseguia sentir a dor.

E o sangue. Molhando a terra. Sumindo no chão como se nunca tivesse existido.

Amanheceu assim.



Ele no chão. Os cachorros em volta. A casa intacta.

Quando o sol nasceu, Bahia tentou se levantar. Não conseguiu. Tentou de novo. Conseguiu sentar. Rasgou um pedaço do vestido verde-água e amarrou na perna, apertado. O sangue tinha parado de escorrer, mas o pano ficou vermelho em segundos.

Tinha uma entrevista marcada. Lembrou. Nove horas. Com aquela jornalista.

Não ia dar.

Não ia dar para falar. Não ia dar para ficar de pé. Não ia dar para nada.

Então só esperou.

Esperou ela chegar. Esperou o padre chegar. Esperou alguém ver que ele estava ali, que ele não tinha sumido, que ele ainda existia.

E alguém veio.


FIM

 

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