A Mesa dos Invisíveis



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Eu conheço aquele restaurante. Passei na frente dele outras vezes — de dia, com pressa, com outra coisa na cabeça. Naquela noite, depois da academia, depois da sauna, depois do corpo devolvido a si mesmo por algumas horas, parei na calçada sem saber exatamente por quê.

Do lado de fora havia uma mesa redonda e escura, duas cadeiras com almofadas estampadas de folhas, e um vasinho pequeno de lavanda amarrado com fita dourada. As cadeiras estavam vazias. A lavanda, quieta. Li as letras douradas na fachada preta sem processar o que diziam. Entrei.

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Naquele dia eu tinha enviado o livro ao editor.

Não é uma frase que caiba num parágrafo curto, mas vou tentar. São anos nisso. Anos ouvindo gente que dorme na calçada, que come o que acha, que carrega tudo o que tem numa sacola plástica amarrada no pulso para não perder enquanto dorme. Anos lendo Carolina Maria de Jesus escrever às três da manhã com fome — anotando a fome com a mesma caneta com que anotava os filhos dormindo. Anos atrás do Pantera, do Massacre da Sé, dos sete corpos deitados numa praça que a cidade preferia não ver. Anos dentro da Missão Belém, ouvindo histórias que não pedem compaixão, pedem presença, que é outra coisa.

Tudo isso virou um livro. Quinze capítulos. Sete partes. Mais de cem mil palavras. Naquele dia eu tinha mandado tudo para o editor, num arquivo anexado a um e-mail que levei vinte minutos para conseguir enviar porque ficava relendo o assunto da mensagem como se pudesse estar errado.

Depois fui para a academia. Depois a sauna. Depois andei pela cidade um pouco, sem destino, que é o que o corpo pede quando finalmente tem permissão de não estar a caminho de nada.

Foi aí que parei na frente do restaurante.

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Entrei. Pedi uma salada, folhas roxas e verdes, mozzarella em bolinhas brancas perfeitas, tomates-cereja cortados ao meio, um fio de balsâmico desenhando linhas sobretudo como se alguém tivesse decidido que a comida merecia cuidado estético. Pedi uma italiana de maçã verde. Sentei num dos sofás vermelhos, perto da abajur cor-de-rosa que iluminava o canto com uma luz que não iluminava nada demais — só o suficiente para ver a mesa, a taça, as mãos.

O teto tinha rosas impressas. Um lustre de cristal ao centro da sala. Na parede, quadros com botânicas emolduradas em dourado. O garçom sabia o nome de cada prato e como descrevê-lo. O piso tinha um mosaico de azulejos que fiquei olhando por um tempo sem entender por quê.

Não era fome o que eu sentia. Ou era, mas não do tipo que um cardápio resolve.

Era outra coisa. A sensação de quem carregou um peso por anos e acabou de pousá-lo no chão, e que agora olha para as próprias mãos vazias sem saber o que fazer com elas. As mãos não esqueceram o peso. Continuam curvadas na forma dele.

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Mandei mensagem para um amigo. Ele perguntou o que eu estava fazendo num lugar daquele, sozinho.

Fisicamente estou sozinho, respondi. Mas não estou sozinho.

Ele não entendeu. Tudo bem.

Porque o que aconteceu naquela mesa não tem explicação fácil, e eu não quero forçar uma. O que aconteceu foi que eles vieram. Sem que eu os chamasse — ou talvez exatamente porque eu chamei, sem saber que estava chamando. Vieram sentar.

Carolina veio primeiro. Sempre vem primeiro. Ela que escrevia com fome, à luz de vela, num barraco no Canindé, enquanto os filhos dormiam e a cidade lá fora não sabia que ela existia. Ela que catava papel de dia e escrevia de noite, e um dia um editor apareceu e o mundo fingiu que a tinha descoberto — como se ela não estivesse lá o tempo todo.

Depois vieram os moradores da Missão Belém. Os que me deixaram entrar, sentar, ouvir. Os que contaram coisas que não são contadas para estranhos, mas que me contaram por que ficaram me vendo toda semana até eu deixar de ser estranho. Não sei se isso é pesquisa. Sei que foi o que aconteceu.

Depois Pantera. Que eu só conheço pelas fotografias, pelo documentário, pela memória de quem esteve lá. Que morreu numa praça que agora tem um memorial — que a prefeitura às vezes lembra de não deixar deteriorar.

Depois os outros. Os sete do Massacre da Sé. Os que Plínio Marcos colocou no palco quando o palco não os queria. Os que Patrícia Melo transformou em personagens tão reais que doem. Os que Babenco filmou com câmera na mão porque era a única maneira de não mentir.

Vieram todos, e eu não me levantei para ir embora.

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Olhei para as cadeiras ao redor da mesa.

Sentei cada um. Um por um, em silêncio, sem cerimônia.

Servi a salada. Servi a italiana verde e gelada. O pão chegou na cesta — daqueles torrados, em fatias finas, do tipo que chegam antes de você pedir — e parti para todo mundo.

Há algo que eu não sabia que sentia até aquele momento: vergonha e gratidão ao mesmo tempo, que não são sentimentos que costumam aparecer juntos, mas que naquela noite estavam sentados um do lado do outro sem se incomodar. Vergonha por estar ali onde eles não poderiam estar. Gratidão por ter podido estar com eles do jeito que pude — dentro dos livros deles, dentro das ruas deles, dentro das histórias que me deixaram carregar por um tempo.

Um amigo me perguntou, quando contei: mas não é contraditório?

Sim. É contraditório. A contradição ficou sentada também, bebendo junto, sem pedir licença. Não a resolvi. Nunca vou resolver. Quem escreve sobre fome e depois come não resolve isso: aprende a viver com a rachadura, que é diferente de fingir que ela não existe.

* * *

Tem uma coisa que o livro não diz, porque os livros acadêmicos não têm espaço para isso, mas que eu sei desde o primeiro dia de campo: os invisíveis não precisam que ninguém os torne visíveis. Eles já estão lá. O problema não é a ausência deles — é a estrutura do olhar de quem passa.

Passei anos tentando mudar meu olhar. Não sei se consegui. Sei que o olhar mudou alguma coisa em mim, que é menor e mais do que eu pretendia.

A salada estava boa. O balsâmico tinha acidez na medida certa. A italiana de maçã verde era fria o suficiente para sentir no peito quando descia.

Comi devagar, como quem não quer que o jantar acabe.

* * *

Quando pedi a conta e saí, as duas cadeiras do lado de fora continuavam lá. Mesa escura, almofadas estampadas, o vasinho de lavanda com a fitinha dourada. A noite tinha esfriado um pouco.

Fiquei parado na calçada por um momento, olhando para as cadeiras vazias.

Pensei em tudo o que cabia naquele vazio — e em tudo o que não cabia.

Depois fui embora.

 

A lavanda, quieta.


Acir Dias da Silva

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